O rio é o primeiro arquiteto da cidade, antes das avenidas, praças, prédios, pois é a água que desenha seu espaço físico e simbólico. É o seu curso que nos mostra toda a tradição civilizacional desde o Éden – com o Gion e Fison, o Nilo no Egito, o Ganges na Índia, o Tâmisa em Londres, o Sena em Paris e, por que não, o Meia Ponte em Goiânia. Ou o córrego Botafogo, que cada vez mais insiste em retomar seu papel físico e simbólico na sociedade à contragosto da infraestrutura urbana goianiense. Com uma nascente no Jardim Botânico, o córrego Botafogo recebe três subafluentes: o Sumidouro, o Areião e o Capim-Puba. Seu trecho urbano tem cerca de 10,93 quilômetros e entre os anos 80/90 passou por uma obra de canalização que deu origem à Marginal Botafogo, com 14 quilômetros de extensão, projetada com o paradigma daquele tempo: “mobilidade centrada no automóvel”. O desnível total entre a nascente e o ponto de deságue é de aproximadamente 143 metros – um gradiente baixo com escoamento lento. Assim, a canalização eliminou a infiltração, concentrou vazões e criou um corredor de risco permanente: o que deveria ser uma solução virou um bolsão de enchentes.