Imaginemos uma pessoa que perdeu tudo, a casa, o país, os seus... Michèle Petit passou décadas a escutar gente assim, sobreviventes de guerra, exilados e refugiados; depois formulou uma tese que afronta o senso comum: diante da dor extrema, o que reconduz alguém à vida é a beleza, uma tela diante da qual se detém, um verso que enfim diz o que sozinhos não dizemos. Em “Somos animais poéticos: A arte, os livros e a beleza em tempos de crise”, a antropóloga reúne testemunhos sobre quem, tendo perdido o mundo, encontrou na arte o antídoto que faltava à própria dor. A tese é modesta no enunciado e relevante nas consequências. Dependemos de alguma beleza para nos reconhecermos como sujeitos de valor e de direito à existência. Somos animais poéticos, e isso nos salva! Petit se debruça sobre experiências que a linguagem corrente não costuma alcançar.