A infância tem sido progressivamente confinada. Condomínios fechados, bolhas sociais homogêneas e horas prolongadas diante das telas criam uma sensação de proteção, mas escondem um custo alto para a saúde mental das crianças. O isolamento, embora bem-intencionado, empobrece a experiência de existir. A psicologia inspirada no pensamento do filósofo Martin Heidegger parte de uma ideia simples e profunda: o ser humano não existe isolado. Existir é sempre existir no mundo, em relação aos espaços e às outras pessoas. Quando restringimos o mundo da criança, restringimos também suas possibilidades de ser. Uma infância excessivamente controlada, previsível e homogênea reduz o campo de experiências que são necessárias para o amadurecimento psíquico. Heidegger alertava que o maior perigo da técnica moderna não está nos aparelhos em si, mas na forma como pode transformar nosso olhar sobre o mundo. Tudo tende a virar algo a ser controlado, otimizado, tornado “eficiente”. No fim das contas, esse modo de viver acabou alcançando também as crianças.