Penduricalhos Naquele ano, como o clima ajudou, a pequena cidade teve uma grande safra de uvas. O prefeito teve uma ideia: que tal fazermos um chafariz na praça central e na inauguração o mesmo irá jorrar vinho, que será distribuído gratuitamente para a população e visitantes? Todos acharam a ideia brilhante, pois a cidade iria ficar famosa na região. Ficou combinado que cada produtor de vinho iria doar um barril, assim não ficaria pesado para ninguém. No dia da inauguração, quando o chafariz foi ligado, eis que sai uma água colorida . Alguns pensaram que o vinho tinha sido furtado, mas na verdade o que aconteceu foi que quase todos produtores de vinho pensaram a mesma coisa, ao invés de vinho, iriam levar um barril de água, pois ao ser misturado ao vinho que os outros levariam, ninguém iria perceber que era água. O problema foi que a maioria pensou a mesma coisa e o que era para ser um dia glorioso tornou-se uma grande vexame. Ora, onde eu quero chegar. No Brasil sempre tivemos uma casta privilegiada que entende que os outros devem se sacrificar, sempre os outros, nunca ela. Um famoso político latino-americano dizia:”Ou tem para todos ou não tem para ninguém”. Foi noticiado que altos servidores públicos estão revoltados com o fim dos penduricalhos. Ora, em um país onde o salário mínimo mal dá para suprir as necessidades básicas, onde muitos profissionais como médicos, professores, servidores públicos têm ganhos salariais que não chegam a dois dígitos, alguns se sentem a vontade em ganhar salários superiores a três dígitos. O Brasil tem uma minoria de pessoas que não se importam com os demais, pensam apenas em si. Lembremos a revolução francesa, onde a aristocracia vivia na opulência, sem produzir nada para a sociedade e houve uma revolução. Peço aos senhores do andar de cima, que tanto reclamam dos altos índices de criminalidade, que pensem em quantas crianças carentes seria possível colocar em escola em tempo integral de qualidade com seus auxílios paletós, livros, saúde etc., desidratando a mão de obra do crime. Esqueçamos o ditado: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Se a farinha está pouca, vamos reparti-la de forma mais justa!