Da vacina ao detergente Lá em casa, nos anos 1970, vacina não era tema de debate filosófico. Chegava o dia, arregaçava-se a manga e pronto. Nenhuma criança saía da fila alegando “direito de pesquisa independente”. Tomávamos vacina porque os adultos tinham visto de perto o estrago das doenças — e porque mãe nenhuma estava disposta a negociar com difteria, sarampo ou poliomielite. As seringas eram de vidro, reutilizadas e fervidas com rigor. A agulha assustava, o braço doía, havia choro, mas também confiança. A gente tomava a vacina, ganhava um doce, talvez, e voltava para casa protegido. Lembro da gotinha da poliomielite, da marca da BCG no braço, das campanhas públicas que salvaram milhões de vidas. Funcionaram tão bem que muita gente passou a acreditar que o perigo nunca existiu. Talvez essa seja a ironia do nosso tempo: a ciência venceu tanto que parte das pessoas começou a desconfiar dela. A vacina erradicou doenças, aumentou a expectativa de vida e, em troca, ganhou a desconfiança de quem aprendeu imunologia em vídeos de 40 segundos. A pandemia de Covid-19 deixou isso evidente. Enquanto médicos e enfermeiros tentavam conter uma tragédia mundial, havia quem recusasse proteção em nome de teorias improvisadas e correntes de aplicativo. Agora surge o alerta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre um detergente que pode colocar vidas em risco. E o que acontece? Pessoas gravam vídeos usando — e até ingerindo — o produto diante da câmera, como se imprudência fosse entretenimento. É difícil não se perguntar em que momento trocamos a prudência pelo espetáculo. Antigamente, a humanidade temia epidemias. Hoje, desafia detergente para ganhar curtidas.