A renúncia do governador Ronaldo Caiado (PSD), nesta terça-feira (31), para ser candidato a presidente da República, marca não apenas o fim de seus mandatos de pouco mais de sete anos, assim como a volta do MDB ao Palácio das Esmeraldas, 27 anos depois de Marconi Perillo ter tirado o emedebismo do poder. O partido retorna pelas mãos do vice-governador Daniel Vilela, filho de Maguito Vilela, que tinha 15 anos de idade naquele 1º de janeiro de 1999. Qual MDB chega ao poder e o que significa esse retorno alçado por Caiado, histórico adversário do antigo MDB? A análise que se segue foi desenhada com as linhas fornecidas pelos cientistas políticos Pedro Célio Alves Borges e Denise Paiva, ambos estudiosos do PMDB e do irismo. Coube-me fazer a costura a partir dessas linhas. O MDB atual não é o mesmo que deixou o governo. Pedro Célio divide a história do partido em dois períodos, a do PMDB da resistência democrática e do PMDB depois da Constituição de 1988, quando se encerrou a fase de reconstrução da democracia e se iniciou a de regularidade democrática. A partir daí o partido volta-se para os estados, para sua capilarização regional, guiado por lideranças regionalmente fortes, casos de Iris Rezende em Goiás, Jader Barbalho no Pará, Orestes Quércia em São Paulo etc. Esse foi o partido que governou Goiás entre 1983 e 1999 (dois mandatos de Iris, um de Henrique Santillo e um de Maguito Vilela). Iris Rezende liderou essa estrutura fora do poder por quase 20 anos, mas seu capital político diminuiu ao perder todas as eleições estaduais que disputou, em 1998, em 2002, em 2010 e em 2014 – ele venceu quatro eleições, mas apenas em Goiânia. Daniel Vilela assumiu a direção do MDB em 2016 em uma disputa contra Nailton Oliveira, candidato de Iris. Essa vitória acentuou a fratura entre o irismo e o maguitismo e provocou um trauma na relação entre os dois grupos que, não por acaso, redundou agora no rompimento de Ana Paula Rezende, a filha de Iris, que trocou o partido pelo PL de Jair Bolsonaro. A derrota interna de Iris representou a transição da velha guarda do MDB para a nova geração e a independência de Daniel em relação a Iris, o que seu pai Maguito nunca ousou fazer. Faz 10 anos que ele comanda o diretório regional, ou o que sobrou daquele MDB, como constata Pedro Célio, para quem o antigo partido se fragmentou e o que resta é uma parte dele.O MDB atual não tem a capilaridade do antigo nem bandeiras para chamar de suas – o primeiro PMDB lutou pelo fim da ditadura militar e o segundo trabalhou pela modernização do Estado, com foco em infraestrutura. O vice-governador ancora-se nas bases políticas, nas bandeiras administrativas e no discurso de Caiado e chega ao poder como uma extensão deste, uma ironia histórica, pois o governador foi um duro adversário de Maguito em 1994, quando ambos disputaram a eleição para o governo, com a vitória do emedebista.Daniel Vilela começa escrevendo a história a seu modo. Em resposta a esta coluna ele afirmou, por meio de sua assessoria, que Caiado já é um “aliado histórico”. “O que nos une é a forma de enxergar a política, os princípios sólidos e a maneira de trabalhar.” Para ele, “gestões realizadoras” sempre foram marcas dos governos do MDB, “as mesmas do governador”. E diz que seu propósito será o de “seguir avançando nesse projeto iniciado e liderado” por Caiado. Se tiver ambição de ser um líder duradouro, ele terá de fazer a transição do caiadismo para um governo com a sua marca. E terá ainda de construir o que a ciência política chama de seu “campo político”, de reconstruir a capilaridade do MDB e criar conteúdo próprio para sua ação política, como Caiado fez com eficiência para seus mandatos à frente do Estado. “O tom de voz alto e a expressão corporal são elementos da composição política de Caiado, de uma liderança que se impõe”, observa Pedro Célio. “A política tem suas belezas e uma delas é que nada é definitivo”, constata Denise Paiva para expressar sua interrogação sobre o que será o governo de Daniel. A partir da próxima terça-feira, Daniel terá a oportunidade de escrever sua própria história, ainda bastante imprevisível.