As sabatinas de candidatos a presidente da República realizadas pelo Jornal Nacional, da TV Globo, em horário nobre, são uma espécie de baile de gala de estreia na campanha eleitoral. O ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) sabia disso, e declarou que a entrevista era a grande oportunidade para ele se tornar conhecido. Caiado sempre foi considerado um ás do debate político. Ele se gaba de ser um bom debatedor. E está certo. Ele pensa rápido, é criativo para elaborar frases de efeito e agressivo na abordagem. Por outro lado, não sabe lidar bem com entrevistas que o acuam. Nos 7,3 anos em que foi governador Caiado interrompeu entrevistas de forma ríspida por não gostar das perguntas, e foi indelicado e irônico com jornalistas que executam a nobre tarefa de fazer as perguntas necessárias, ainda que duras.Caiado fiou-se nessa experiência e parece não ter se preparado para as sabatinas desta terça-feira (25), na Globo, e da quarta-feira (26), da Rádio CBN e dos jornais O GLOBO e Valor Econômico. Para usar uma expressão da jornalista Natuza Nery, da Globonews, sua participação no horário nobre da TV brasileira foi “caótica”. O ex-governador falou sem parar, mal deixando espaço aos entrevistadores, se incomodou com perguntas sobre seu programa de governo, exagerou na retórica e nas frases feitas.Ele parecia um modelo de inteligência artificial, o CaIAdo. De seu banco de dados retirou frases prontas, metáforas do universo rural, bordões, expressões sarcásticas e agressivas contra adversários políticos, estatísticas próprias para elogiar seus feitos como parlamentar ou como governador e muita retórica. Estão nos arquivos de IA expressões que os goianos já ouviram à exaustão e que agora ele as difunde nacionalmente tais como: “Em Goiás, faccionado só fala com Deus”; “tenho estatura moral e autoridade política para olhar no olho de qualquer um; “em Goiás bandido não se cria”; “tenho muito a mostrar e nada a esconder”; “eu não sou frango de granja, eu sou galo de terreiro”. Diferentemente dos modelos de IA, Caiado não aceita “prompt”, e prefere falar sem interrupção ou questionamento.Em um texto distribuído entre colegas publicitários, o marqueteiro político Renato Monteiro observou que o desempenho do ex-governador foi insuficiente por não apresentar o conteúdo que apregoa ter para se diferenciar dos outros candidatos e que ele perdeu muito tempo com o uso de bordões. Caiado gosta de repetir que “pisa na vaidade todos os dias”, mas Monteiro observou que ele se mostrou bem vaidoso. “A agressividade e o excesso de vaidade podem gerar antipatia”, escreveu o publicitário. Na sabatina da rádio CBN o ex-governador atacou gratuitamente o advogado criminalista Alan Kardec Cabral Júnior, apesar de ter dito que não o conhecia, ao sugerir sua ligação com o PCC. Essa mão pesada apareceu, porque a jornalista Maria Cristina Fernandes o questionou sobre a dissertação de mestrado do advogado, mostrando que 98% dos inquéritos de mortes por intervenção policial foram arquivados em Goiás. Só 2% chegaram a ser julgados pela justiça.“Ele usa o argumento ad hominem (expressão em latim que significa contra a pessoa) diante de fatos que não tem como argumentar”, reagiu Alan Cabral Júnior ao responder a esta coluna como recebeu os ataques. Autor do livro “Violência Estatal: o arquivamento dos inquéritos nas mortes por intervenção policial” (Editora Tirant Brasil), o advogado é professor de Direito da UFG, presidente da Comissão de Execução Penal da OAB-GO e membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.Por tudo isso, Caiado perdeu sua oportunidade de ouro de mostrar ao eleitor brasileiro suas credenciais como alternativa aos líderes dos dois polos políticos. Acabou mostrando o oposto do que queria, a julgar pelas notas de 1 a 5 dos colunistas do jornal O GLOBO para o desempenho dos sabatinados. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tirou 3, a maior nota até esta sexta-feira (28), seguido por Renan Santos (Missão), com nota 2,6; pelo ex-governador Romeu Zema (Novo) que tirou 2. Caiado receber a menor nota, 1,4. Há uma dissonância cognitiva entre o Caiado revelado ao Brasil e aquele que Caiado gostaria de ter revelado.