O cenário das eleições 2026 está tão imprevisível que me fez relembrar um antigo ditado que dizia: “De cabeça de juiz, barriga de mulher e urna, ninguém sabe o que pode sair”. O ditado caiu em desuso, porque na década de 1980 a ultrassonografia para identificar o sexo de bebês se popularizou; porque as manifestações públicas de magistrados passaram a ser comuns e, por fim, porque as pesquisas eleitorais apontavam alguma previsibilidade de resultados.Neste ano, interferiram na aferição das intenções de voto a avalanche de fatos políticos que interferiram quase diariamente no humor da população, os sucessivos escândalos políticos com o Banco Master, gerando a sensação de que “nada presta”; a crise entre os ministros que derrubou a credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF), o aparente cansaço com a polarização e a alta rejeição dos dois líderes da pesquisa (Luiz Inácio Lula da Silva, PT, e Flávio Bolsonaro, PL), reduzindo o passionalismo das torcidas de candidatos; e a maior clivagem dos grupos de eleitores.Nesta véspera da eleição – considerando as pesquisas divulgadas até esta quinta-feira (1º) –, o resultado é tão incerto, chutar qualquer coisa, que a disputa terminará no primeiro turno, com vitória de Lula ou de Bolsonaro ou que ela seguirá ao segundo turno. Em Goiás o cenário é de favoritismo do governador Daniel Vilela (MDB), levando em conta as pesquisas divulgadas até a semana passada – neste sábado (3) será publicada nova pesquisa Quaest/TV Anhanguera que poderá trazer alguma certeza.Até o momento em que escrevi este artigo a imprevisibilidade acontece também aqui, pois há chance de o governador vencer no primeiro turno, como de a disputa seguir para o segundo turno. Nesta hipótese também é impossível acertar em cheio quem disputaria com Daniel, se Marconi Perillo (PSDB) ou se Wilder Morais (PL). O tucano segurou a segunda colocação nas pesquisas desde o início da campanha, mas Wilder se movimentou, ainda que abaixo do esperado para essa reta final, em direção ao segundo lugar.A equipe de Wilder aposta em seu avanço mais ligeiro nas últimas horas da campanha, por conta do número de eleitores indecisos e dos que podem mudar o voto. A última pesquisa Quaest/TV Anhanguera (25/09/2026) mostrou 16% de não votos (soma de indecisos, abstenção e nulos) no cenário estimulado e que 28% dos eleitores admitiam mudar o voto para governador. Esses índices animam a turma do PL. Eles ainda esperam pelo bolsonarismo de chegada, que elegeu Wilder senador em 2022.O PSDB duvida de pesquisas que mostram alta rejeição de Marconi Perillo (era 52% na última Quaest). Os tucanos até reconhecem dificuldades na campanha, mas apostam que Marconi se manterá na segunda colocação, porque não enxergam Wilder com um perfil de bolsonarista genuíno para alavancar sua candidatura nesta reta finalíssima.Já os governistas avaliam haver uma conjuntura favorável à vitória de Daniel Vilela, no primeiro ou no segundo turno. Eles citam a defesa da continuidade administrativa, ancorada na alta aprovação de Ronaldo Caiado (PSD), o índice de 74% dos eleitores que declararam que Caiado deve fazer o sucessor, e consideram que Daniel manteve a boa imagem do governo herdado de Caiado, já que 68% declaram aprovar seu governo. A campanha estadual foi mais estável que a presidencial, mas ainda assim sentiu respingos dessa disputa, em especial sobre a indefinição de onde Wilder vai chegar. A exemplo do El Niño, fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que altera o clima na Terra, há um El Niño político neste ano, formado por fatos da conjuntura nacional (citados acima) que interferem no clima da eleição.Assim como o El Niño provocou uma intensa e inédita chuva em Goiás nestas quinta e sexta (2), em pleno período de seca no Cerrado, com direito a invernada, as eleições passam por instabilidade atípica que dificulta respostas certeiras dos institutos de pesquisa. Por isso o país chega no dia da votação como chegava antes das inovações tecnológicas, sem saber o que pode sair das urnas.Boa eleição.