A eleição de 2022 foi a mais tensa desde a redemocratização, em 1985. A polarização entre dois candidatos, com suas torcidas extremamente passionais, nem foi o principal foco de conflito. A depredação da Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, e os ataques a 20 torres de transmissão de energia em três estados brasileiros, nos dias seguintes, foram os acontecimentos finais de uma série de atos golpistas.A eleição de 2022 não terminou, diz o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas, Fernando Abrucio, “porque o lado que perdeu não só não aceitou (o resultado), como tentou dar um golpe de Estado”. Seguindo esse raciocínio, a eleição de 2026 tende a ser uma continuação da anterior. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com baixa popularidade, cambaleia rumo às urnas contra a direita, dividida entre as candidaturas do senador Flávio Bolsonaro (PL), nomeado pelo pai seu herdeiro político, e dos ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo/MG). Os dois últimos disputam o título de quem mais agrada os bolsonaristas, com promessa de anistia aos golpistas, em um arremedo de “pacificação”, porque exclui uma das partes da polarização. Será mais uma eleição sem terceira via. Ao menos agora não há o clima belicoso de 2022 nem a ameaça de golpe de estado, o que já desanuvia o ambiente. No entanto, esta eleição tem seu próprio episódio de tensionamento, além da repetida polarização. Ela ocorre em meio às investigações das fraudes bancárias do Banco Master e do escândalo que tanto desalento provoca no país.As fraudes financeiras são tão grandiosas quanto os bilhões e milhões de reais pra cá e pra lá em contas bancárias, contratos com familiares de ministros do STF, e com políticos de direita e alguns de esquerda. O dinheiro é ecumênico. Boa vontade coberta de ouro, em troca de socorro financeiro ao banco – o BRB adquiriu R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito da instituição –, de contratos com fundos de pensões e de mercado para o cartão Credcesta em estados e municípios. Dois registros em Goiás: em 2023, o governo de Ronaldo Caiado criou uma lei para ampliar de 35% para 45% a margem de crédito para oferta de cartão de benefícios a pedido de um diretor do Master, interessado em vender o Credcesta a servidores estaduais; o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) recebeu R$ 14,5 milhões da instituição em um contrato de consultoria. A crise engendrada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro atingiu especialmente os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. E provocou a perda de confiança do Supremo Tribunal Federal (STF), uma instituição já em crise de confiabilidade menos por seus erros, e eles são abundantes, e mais pela campanha bolsonarista contra suas necessárias medidas de contenção em defesa da democracia, durante o governo de Jair Bolsonaro, e pelo julgamento dos atos golpistas. Há no Brasil um clima generalizado de insatisfação contra o sistema político. Desde as gigantescas manifestações de 2013, o sentimento do eleitor é ser “contra tudo isso aí”, numa reação irracional que em vez de melhorar só faz piorar o país, como o 8 de janeiro não me deixa mentir. Desta vez membros dos Três Poderes encontram-se enredados nesse escândalo. Às vésperas da eleição, a tendência é de piora na percepção do eleitor sobre o país, propiciando desatinos eleitorais. E não há disposição de políticos em campanha eleitoral de atuar pela melhora deste clima. Ao contrário, deputados politicamente gordos com recursos de emendas parlamentares e com seus exércitos de comissionados, de um lado e, de outro, presidenciáveis menos preocupados com a conciliação nacional e mais focados em pautas populistas compõem os times dos “clubes partidários” que se preparam para entrar em campo. O Brasil se aproxima de mais uma eleição neste cenário, correndo novamente o risco de o próximo pleito não se encerrar. Se isso acontecer a campanha eleitoral não terminará, impedindo qualquer governo de também governar. Parece um país sem saída.