A frase do título acima é como o físico Daniel Tygel denomina o “corredor geopolítico seguro” que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estaria criando para importar terras raras do Brasil e montar nos Estados Unidos a cadeia completa de sua produção. Por esse modelo, o Brasil entraria com a matéria-prima (o carbonato de terras raras), ficando a separação dos óxidos, produção da liga e de super ímãs em terras gringas.O Brasil tem 20% das terras raras do mundo, mesma proporção do petróleo que sai do Estreito de Ormuz real, no Oriente Médio, daí a associação feita pelo físico Tygel, presidente da Apa da Pedra Branca, localizada no município de Caldas, no sul de Minas Gerais. A China tem 50% das reservas mundiais desses minerais e domina mais de 90% da produção global.Trump corre para romper a dependência dos chineses e, assim, preservar a soberania nacional deles – principalmente a bélica dependente desses minerais. Nesse contexto ocorreu o anúncio, nesta segunda-feira (20), da aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth (USARE). A usina da Serra Verde localiza-se em Minaçu/GO, e é única de terras raras em atividade no Brasil. A operação não foi apenas um negócio privado de US$ 2,8 bilhões, sendo US$ 1,6 bilhão do Tesouro americano; foi uma manobra de segurança nacional dos EUA para garantir uma cadeia de suprimentos de minerais críticos (terras raras pesadas) fora da órbita chinesa.Por que tudo isso importa, especialmente a Goiás?Em 18 de março o então governador Ronaldo Caiado (PSD) assinou um “Memorando de Entendimento” com o Departamento de Estado dos EUA para facilitar o acesso de investidores americanos a dados geológicos goianos e criar um ambiente administrativo favorável para empresas designadas pelos EUA. Juridicamente, o documento é um instrumento de intenções políticas (soft law), não um tratado ou contrato vinculante.Caiado caminhou no limite das competências estaduais. Ao assinar esse memorando, o Estado de Goiás tentou se projetar em uma esfera (a política externa) que é de competência exclusiva da União, aproveitando-se da omissão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste assunto estratégico para o Brasil.Só que o memorando de Caiado também não evitará que as terras raras saiam do Brasil como uma mera commodity, como já saem os grãos, o ferro e o aço. Ao assinar um contrato de off-take (compra garantida) de 100% da produção com uma SPE americana, a USARE ignora a seção 3 do memorando que incentiva a “operação de valor agregado no Estado de Goiás”.O governador Daniel Vilela reuniu-se na quinta-feira (23) com o CEO da Serra Verde no Brasil, Ricardo Grossi, e ouviu dele que uma empresa mista (capital público e privado) sediada nos EUA ficará responsável pela comercialização da produção goiana. Grossi informou que os EUA esperam desenvolver, até o final de 2027, sua própria tecnologia.Depois disso definirá o local do processamento, uma decisão exclusiva dos norte-americanos que pode pôr em choque a retórica de “Goiás no centro da transição energética mundial” e a realidade de um modelo de negócio que é puramente exportador, deixando ao Estado os passivos ambientais – notadamente autuações em 2022, 2024 e 2026 por desmatamento em nascentes do Cerrado.A única reação conhecida do governo do presidente Lula em relação a este assunto foi o acerto com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para votação da Política Nacional de Minerais Críticos (projeto de Lei 2780/2024) na primeira semana de maio. Enquanto Lula discursava em defesa da “soberania nacional”, Trump agia nos bastidores com políticas efetivas em prol de seu “America First”.O que leva à pergunta: o que o Brasil quer ser na nova ordem mundial que se avizinha: exportador de mais uma commodity ou agregar valor a sua reserva de terras raras para ter poder no jogo da nova geopolítica? A ausência de um projeto nacional de desenvolvimento faz muita falta. A campanha eleitoral será um bom momento para esse debate e para mostrar quem realmente se preocupa com o futuro do país.