Goiânia vestiu-se para festa nesta semana para receber a etapa brasileira do campeonato mundial de motovelocidade, o MotoGP. Por meios tortos, essa competição carimbou seu nome no episódio mais tenso da capital, revelando um contraste entre o glamour de um evento internacional e uma crise humanitária sem precedentes. Em 13 de setembro de 1987, dois catadores de lixo retiraram uma peça de chumbo com uma cápsula de césio 137 das ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia, na rua 4, no Centro de Goiânia, onde fica atualmente o Centro de Cultura e Convenções. Nos 14 dias entre a remoção dessa peça e a realização da prova, em 27 de setembro, abriu-se a cápsula, um pó azul brilhante passou de mãos em mãos de familiares e amigos dos catadores e do dono do ferro-velho que a comprou, contaminando e adoecendo centenas de pessoas.A sombra do césio 137 pairou sobre aquela prova há quase 39 anos. Neste retorno, com Goiânia novamente sediando a competição, esperava-se que a tragédia não mais assombrasse a capital. A Netflix não pensou assim e lançou, nesta quarta-feira (18), a minissérie Emergência Radioativa, como se quisesse nos dizer que este acidente estará para sempre ligado ao MotoGP.Dirigida por Fernando Coimbra e produzida pela Gullane em parceria com a Netflix, a minissérie não conta apenas a história daqueles dias fatídicos. Ela mostra o drama do tratamento das vítimas mais afetadas, a contenção da contaminação e a descontaminação de áreas atingidas, e a tensa gestão da crise. Os destaques do elenco são o ator Johnny Massaro, no papel do físico Márcio (referência ao físico Walter Mendes, que descobriu o acidente), e Paulo Gorgulho, como Orenstein, personagem inspirado no físico José Júlio Rosenthal. Ele foi o primeiro funcionário da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) a chegar em Goiânia para uma temporada de emergência, mas que viveu na cidade por vários anos. Rosenthal foi um cientista muito carismático e um dos mais comprometidos com a cidade e as vítimas.Há várias críticas procedentes à minissérie. A mais importante porque o foco é nos cientistas (físicos, químicos, médicos) e nas autoridades, em especial o secretário de Saúde e o governador, chamados de Edson e Roberto respectivamente, representando Antônio Faleiros e Henrique Santillo. Outro erro da produção foi sua gravação em São Paulo, criando uma Goiânia cenográfica diferente da real.Os problemas, contudo, não comprometeram a recuperação desta memória que o Brasil vem perdendo. Jhonny Massaro contou que ao ler a sinopse achou que se tratava de uma obra de ficção e bem “criativa”. O ator nasceu em 1992 e não conhecia a história. Eu cobri este acidente, como repórter da TV Brasil Central, e a minissérie me fez reviver cada um daqueles tensos dias. O que mais me sensibilizou foi “ouvir” o silêncio dos radioacidentados e o sentimento de abandono deles. “Ninguém está nem aí para a gente”, constatou um desolado paciente internado no HGG. A desconfiança entre cientistas e autoridades; entre vítimas, cientistas e autoridades; entre autoridades goianas e gestores da CNEN e o governo federal paira por toda a série.A produção mostra um governador sempre só, sem a companhia de assessores ou seguranças. Essa escolha revelou seu isolamento, como de fato aconteceu. Henrique Santillo enfrentou o desconhecido sem apoio do governo do então presidente da República, José Sarney, que manteve distância de Goiânia e de seu drama, da mídia e da sociedade. Santillo brigou contra o medo da população, a recusa dos produtos goianos fora do Estado, com a falta de recursos para cobrir os gastos exorbitantes do estado com o acidente radiológico. Apesar de seu comprometimento, ele teve um final de governo melancólico, com baixa popularidade e sem reconhecimento público. Assim como as vítimas esquecidas dessa tragédia. O último reajuste das aposentadorias dos radioacidentados foi em 2018. Na terça-feira (17), véspera da estreia de Emergência Radioativa, o governador Ronaldo Caiado encaminhou projeto de lei à Assembleia reajustando em 70% em média os rendimentos das aposentadorias. Mérito certamente da recuperação dessa história que nunca pode ser esquecida, com ou sem MotoGP em Goiânia.