Qual o papel da mulher na política? Fora dela, a julgar pela decisão da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, na terça-feira (30) de se afastar da presidência do PL Mulher, depois de um embate com o enteado Flávio Bolsonaro. Pode até ser na política, desde que ela aceite o querer dos homens, a julgar, neste caso, pelo que disse a deputada federal Adriana Accorsi (PT) no mesmo dia. “Minha resposta para eles é simples: entendam de uma vez, não é não”, desabafou para reclamar de pressão de um grupo de homens para ela desistir da reeleição e se candidatar ao governo.“(Flávio) Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”, disse Michelle em vídeo sobre o enteado presidenciável, divulgado em 24 de junho. Em outro trecho: “Eles me tratam como se eu fosse idiota, como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou”. E ainda: “Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone”, contou em frases que lembram as clássicas desqualificações machistas, que obviamente ela não acusa.A linha de frente do bolsonarismo agiu rapidamente para blindar o senador e atacar a ex-primeira-dama, com um alto estoque de vilanias. O caldo entornou no debate político depois que um dos bolsonaristas machistas (ou seria redundância?) atacou todo o universo feminino, dizendo que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras; as casadas costumam acompanhar o marido”.A acusação de Adriana Accorsi contra aliados de esquerda é reveladora de como o machismo estrutural impregnou comportamentos de quem diz defender os direitos das mulheres. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é pródigo em declarações machistas. E ainda que o machismo, no caso da petista, seja colateral (a origem da pressão é a falta de um candidato competitivo a governador), fica a dúvida se ela ocorreria se em vez de Adriana ela fosse Adriano.À direita, em grau mais intenso, e à esquerda, mais sutilmente, homens atacam o maior universo eleitoral do país. No livro recém-lançado, “O país dividido: Duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002/2022)”, o cientista político Jairo Nicolau observou que o eleitorado brasileiro se tornou majoritariamente feminino. Em 2002 havia 58,6 milhões de eleitoras. Os homens eram 56,4 milhões. Em 2022 as mulheres eram 82,4 milhões e os homens, 74 milhões, diferença de 8,5 milhões.A melhoria da escolaridade dos brasileiros nas últimas duas décadas provocou mais um efeito no voto. Nas duas camadas de mais alta escolaridade (ensino médio e superior) há uma clara superioridade feminina, revelou Nicolau. A taxa de comparecimento nas eleições aumenta à medida que cresce o nível educacional. Logo, a proporção de mulheres que vai às urnas é superior à dos homens: mais mulheres inscritas, mais bem educadas, menor abstenção. As mulheres estão decidindo e terão participação ativa nas eleições, gostando ou não a “machosfera”.Atitudes grosseiras e truculentas não vão mudar esse dado real. A “feminina e não feminista” Michelle Bolsonaro aprendeu, na dor, que a “imagem de Amélia, mulher doce, recatada, religiosa” que lhe era atribuída por seu grupo político, não cabe em mulheres que, como ela, almejam (ou almejavam) assumir a liderança política e não ser, na prática, mera “ajudadora, auxiliadora do seu esposo” ou exercer a “subordinação saudável”, como já defendeu. Michelle viu-se emparedada por uma estrutura discursiva que ela mesma já pregou e valida para as mulheres do seu partido.Só que ela sabe que hoje a mulher está no trabalho, gerencia suas casas, educa seus filhos – a maioria sem ajuda dos pais. Católica, evangélica ou sem religião, ela não está recolhida ao “recanto do lar”, ainda que este seja o desejo da masculinidade tóxica. A proeminência feminina assusta “os homens que não amavam suas mulheres”, que tomo emprestado do título da obra do autor sueco Stieg Larsson. Aí eles reagem como selvagens e atacam aquelas que pretendem ter como presas eternas.A política é lugar da mulher, inclusive de Michelle Bolsonaro que desconhece o machismo do qual é vítima.