A semana terminou em uma sinuca de bico entre o prefeito Sandro Mabel (UB) e o presidente da Câmara de Goiânia, Romário Policarpo (Cidadania). O prefeito espera a aprovação do projeto Morar no Centro, que se encontra no Legislativo desde 31 de março. O programa é a aposta da prefeitura para ocupação do centro da capital.Mabel disse à imprensa nesta sexta-feira (19) que pretende atrair 10 mil pessoas para morar no centro com o subsídio de R$700 para aluguel de imóveis. Na quarta-feira (17) os vereadores Anselmo Pereira (MDB), Aava Santiago (PSB), Kátia Maria (PT) e Romário apresentaram 12 emendas ao projeto. Mabel demonstrou discordância em relação à maioria delas.Aava e Kátia propuseram 10 emendas para inclusão social e sustentabilidade, mas a prefeitura acha que elas desfiguram o programa. O Morar no Centro, explicam assessores, não é um programa de benefício social, mas de estímulo ao desenvolvimento econômico do bairro. Alegam que existem outros projetos de inclusão, caso do convênio com a Caixa Econômica Federal (CEF) para construção de 2 mil casas com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), do programa de Habitação de Interesse Social (HIS) da União.Politicamente é mais fácil ao prefeito articular a derrubada dessas emendas por serem de duas vereadoras oposicionistas. Mais complexo, contudo, será derrubar emendas de dois vereadores da base aliada e principais aliados do prefeito, como Romário e Anselmo. A emenda de Anselmo propõe a regularização de imóveis no Centro com a emissão de Alvará de Aceite Especial. A ideia pode encontrar apoio no Paço Municipal, desde que incluído um marco temporal, ou seja, um ponto de corte para não liberar geral.Já a emenda de Romário não foi bem-recebida na Prefeitura. Ele propôs isenção de 10 anos de IPTU e de ITBI para novas construções, redução para 2% da alíquota de ISS em serviços de construção civil na região do programa. Também concede 50% de desconto de IPTU para imóveis tombados que realizarem manutenção e isenção total por 5 anos para aqueles que passarem por requalificação total.A próxima semana será de medição de força entre os dois lados. Mabel e Romário tiveram uma conversa amistosa na quarta-feira a ponto de assessores do prefeito entenderam que eles estavam alinhados. Mas não foi bem assim. Mabel apresentou óbices legais para discordar das emendas.As regras para cobrança de imposto são definidas pelo Código Tributário (CT), uma lei complementar (LC). O projeto Morar no Centro é lei ordinária. A Constituição Federal estabeleceu hierarquia entre as leis, de modo que uma lei ordinária não pode alterar uma complementar. Outro vício aparente é que benefício fiscal precisa estar incluído no Anexo do Código Tributário, o que não é o caso da emenda e, por fim, a falta de estudo de seu impacto financeiro.Romário insiste na legalidade de sua emenda, argumentando que propõe isenção de receita nova. A prefeitura contra-argumenta: o benefício fiscal é para restauração de edificações ou para novas moradias em áreas vazias na região, ambos em imóveis que já pagam impostos, receita que o Tesouro perderia.Quais as “armas” de ambos para o embate que se anuncia? Romário tem uma ampla base na Câmara, que sustentou seus quatro mandatos de presidente. As duas bases são contempladas com cargos na estrutura da Câmara ou na Prefeitura. Corre à boca pequena que Romário oferece mais cargos a seus apoiadores do que Mabel, aos vereadores que o apoiam. Sendo assim o presidente tem força política para derrubar vetos do prefeito.Assim formou-se a sinuca de bico neste jogo de bilhar político, com os jogadores buscando o ângulo mais favorável para tocar a bola branca colada à caçapa. Mabel pode definir a partida com entregas à população, que agrada vereadores. O problema é que a maioria de seus projetos estruturantes (construção de oito UPAs, retomada de obras na avenida Castelo Branco, ampliação da Leste/Oeste etc.) não foram licitados, passado um ano e meio de seu mandato. O tempo corre contra Mabel, enquanto a Câmara impõe travas ao andamento de seus projetos de lei.