O vendaval que passou pela Câmara de Goiânia, nesta quinta-feira (28), deixou sequelas, além da óbvia desestruturação da base aliada do prefeito Sandro Mabel (UB). Mabel sofreu duas derrotas neste dia e sua base lhe entregou apenas 13 votos, insuficientes para impedir a derrubada, em primeira votação, da taxa do lixo. Em entrevista coletiva ontem, o prefeito disse que continua com apoio de 31 vereadores, mas reconheceu que há oscilações no grupo. Assessores do prefeito calculam que sobraram só 16 vereadores na base fixa, os 13 fiéis da votação de quinta-feira, e 3 nomes do grupo dos 16 aliados que criaram a Comissão Especial de Inquérito (CEI) do Limpa Gyn e, por isso, entraram em rota de colisão com o prefeito. A grande base rachou e exibiu fratura exposta nesta quinta-feira, sem que a oposição tivesse feito nada, o que nem chega a ser uma novidade. O cientista político Marcos Nobre escreveu em seu livro Limites da Democracia (Todavia, 2022) que as alianças de sustentação de governos são tão heterogêneas e com partidos tão diversos, que crises oposicionistas nascem internamente, e não externamente, provocadas pela oposição. Mabel articulou pesadamente para evitar a CEI, sem sucesso, desde que ela foi proposta no final do primeiro semestre. Ele reclamou de pressões por parte de “meia dúzia” que queriam que ele desse “cargo”, que “eu dou isso, que eu dou aquilo”. As declarações jogaram combustível no fogo da relação com a Câmara. Não é difícil acreditar no prefeito, afinal em 2023 a Câmara criou a CEI da Comurg, quando sacos de lixo se acumulavam por ruas e avenidas, mas depois alguns de seus integrantes negociaram cargos para parentes no primeiro escalão da prefeitura e enterraram as investigações. A Câmara perdeu credibilidade por suas ações, não pelo que Mabel diz.Vereadores do grupo dos 16 insistem que é genuína a preocupação com a baixa qualidade da limpeza e com possíveis irregularidades no contrato da prefeitura com o Consórcio Limpa Gyn. Para eles, a limpeza de Goiânia continua ruim, ainda que o prefeito diga que melhorou. Na realidade ambos têm razão. O serviço melhorou em relação ao que era na gestão de Cruz, mas Goiânia ainda está longe de ser uma cidade limpa. Já a queixa em relação ao trato do prefeito é comum entre base e oposição. “Mabel é truculento”, disse a vereadora Aava Santiago. “O prefeito se mostra arrogante, autoritário, prepotente e extremamente desrespeitoso com todos”, afirmou o vereador Edward Madureira (PT) da tribuna na quinta-feira, ao reclamar da forma como a prefeitura rompeu o contrato da Fundação do Hospital das Clínicas da UFG (Fundahc) com as três maternidades municipais. “O prefeito disse que sou despreparado, que faço farofa pra a torcida e que trabalho pouco, mas falo muito. Essa é a típica retórica de quem não tem argumento”, disse Lucas Vergílio (MDB), autor do projeto que revoga a taxa do lixo, também da tribuna, ao rebater ataques que recebeu de Mabel. O prefeito reforçou seu tom em entrevista nesta quarta-feira (27). “Os caras estavam noutro processo, tem muitos ali que estão acostumados com o tempo antigo que eles tomavam conta de tudo”. E Mabel não deixa de ter razão. O prefeito Rogério Cruz entregou parte de seu poder na prefeitura para vereadores em troca de sustentabilidade política, uma aliança que se revelou desastrosa para a cidade e para ele próprio, haja vista a impopularidade de seu governo e a baixíssima votação na reeleição.Exercer integralmente o poder de prefeito, contudo, não significa ser descortês com o Poder Legislativo. Afinal uma coisa é resistir a pressões inadequadas, outra é tratar todas as pessoas com respeito, sejam elas vereadores, carroceiros, lavadores de caro ou dono de distribuidora de bebidas. O prefeito ainda não encontrou esse equilíbrio. Há disposição de parlamentares do bloco dos 16 de apaziguar a relação com a prefeitura. Esse acordo, contudo, dependerá de vereadores entenderem que a fase de Cruz acabou e de o prefeito distensionar seu discurso. Afinal, é muito pouco tempo para prefeito e Câmara já estarem em pé de guerra.