Desde 1940 as mulheres são a maioria da população brasileira, mas apenas em 2000 elas se tornaram a maioria dos eleitores. Nesta segunda-feira (20) o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelou que 83.877.126 mulheres (52,84%) e 74.845.001 homens (47,16%) estão aptos a votar em 2026 (total de 158.745.463 eleitores). Quer dizer, 9.032.125 milhões a mais de mulheres (a diferença era de 8,4 milhões em 2022). Em Goiás os números são bem parecidos: 52,98% de voto feminino e 47,02% do masculino.A força do voto feminino ainda é maior do que mostram esses dados. No livro “O país dividido – Duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002-2022)”, o cientista político Jairo Nicolau revelou que em todas as eleições deste período a proporção de mulheres que vão às urnas é superior à dos homens. Segundo ele, em 2022 a taxa de abstenção feminina foi 1,5 ponto porcentual menor que a abstenção masculina.Apesar deste poder político, as mulheres foram destaque negativamente na divulgação de outros dados. Na quinta-feira (23) o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) publicou seu anuário de 2026 e revelou que as mortes violentas intencionais (MVI) – que inclui todos os tipos de homicídios, incluindo o feminicídio – diminuíram em todo o Brasil. A taxa de MVI por 100 mil habitantes caiu de 20,8 em 2024 para 19,1 em 2025. Queda também em Goiás de 18,9 para 16,5.Na contramão, os feminicídios aumentaram: 4% no país e 4,3% em Goiás. E para piorar, para cada feminicídio ocorrem antes cerca de 800 outros tipos crimes: ameaça, agressão física, descumprimento de medida protetiva, stalking, violência psicológica e tentativas de feminicídio.A conexão entre essas informações (maioria feminina de eleitores e aumento da violência contra a mulher) ajuda na reflexão sobre o papel da política na vida das mulheres. Elas são maioria das votantes, mas continuam cada vez mais vulneráveis a todo tipo de violência. Sua força eleitoral ainda não redundou em políticas públicas para salvar suas vidas.O Brasil tem uma legislação robusta de proteção da mulher. Só que o crescimento da violência confirma o que especialistas têm enfatizado: esse combate não pode depender apenas do sistema de justiça criminal ou de delegacias. O feminicídio ocorre predominantemente dentro de casa. Como ressaltam os especialistas, o patrulhamento ostensivo de rua e a presença policial tradicional reduzem as MVIs, mas não conseguem prevenir a violência que se gesta no ambiente doméstico. O crime não recuará, dizem eles, sem uma rede de atendimento transversal, com programas de autonomia financeira, de moradia, fiscalização ostensiva e tecnológica de medidas protetivas e de acompanhamento psicológico contínuo.Além de confirmar o crescente aumento do eleitorado feminino e que elas votam mais que os homens, os cientistas políticos investigaram que elas votam de forma diferente dos homens. Em seu livro, Jairo Nicolau revelou que “mulheres pretas de baixa escolaridade consolidaram apoio ao PT; homens brancos do ensino médio e jovens do sexo feminino fizeram escolhas opostas” nas eleições de 2018 e de 2022, divisões que não existiam com a mesma intensidade nos pleitos anteriores.“(...) Grupos demográficos que antes votavam de forma semelhante passaram a fazer escolhas distintas, sobretudo a partir de 2018”, constatou Nicolau. Agora, por minha conta, acredito que a tendência é de essas mudanças continuarem na eleição deste ano. Oxalá, as mulheres usem seu poder de voto para eleger políticos comprometidos com essa causa e também mais mulheres, para dar uma cara mais feminina às instituições públicas.Em 2022 foram eleitas apenas cinco deputadas federais em Goiás, ou seja, 29% dos 17 deputados goianos, e quatro deputadas estaduais, apenas 9,7% dos 41 parlamentares da Assembleia Legislativa. Mais mulheres nas instâncias de poder pode contribuir com a criação e a implantação de políticas públicas efetivas em prol das mulheres e de seus filhos, também vítimas de violência em casa.O estado falha em proteger a mulher e precisa enxergar seus erros para mudar atitudes. Não basta continuar a fazer o que sempre se fez esperando resultados diferentes.