A eleição de 2018 promoveu o maior reordenamento do sistema político brasileiro desde a redemocratização, em 1989. Em Goiás não foi diferente. A combinação de “fadiga de material” de 20 anos de Marconi Perillo (PSDB) no poder, da crise fiscal do Estado, de escândalos de corrupções desencadeados por operações policiais em período eleitoral e da ascensão da direita elegeu Ronaldo Caiado no primeiro turno. Essa desestruturação produziu um vácuo de poder, agravado pelas mortes de Maguito Vilela e de Iris Rezende, em 2021. A histórica derrota dos tucanos riscou o grupo do jogo político. A resistência do MDB, testado na oposição por 20 anos, deu sinais de enfraquecimento. Por fim, a direita se organizou e assumiu o próprio espaço político. Depois daquela eleição, o jornalista Vassil Oliveira e eu olhamos para a destruição e nos perguntamos: “Quais forças políticas vão renascer e assumir o comando da política goiana? Passados oito anos, as imagens começam a se revelar. Quatro grupos se formaram ou se reorganizaram e estão na disputa pelo governo. O senador Wilder Morais (PL) representa a direita bolsonarista. O governador Daniel Vilela (MDB) puxa o grupo do ex-governador Ronaldo Caiado. Marconi voltou para sua quinta disputa a governador. Por fim, a esquerda lançou o ex-deputado Luís César Bueno (PT).Segundo pesquisa Quaest de agosto de 2025, 18% do eleitorado goiano são bolsonaristas. Wilder mira não só neste público, insuficiente para uma eleição majoritária, assim como nos eleitores entre os 26% dos que se declararam direita não bolsonarista. É neste grupo, contudo, que Caiado também estruturou sua liderança. Em 2018, quando conquistou seu 1º mandato, Caiado não tinha um grupo com bons quadros políticos. Ele buscou fora de Goiás muitos de seus secretários, não apenas para ter uma equipe estrelada, mas porque não tinha aliados em condições de assumir as pastas mais importantes.A atração do MDB à sua base, em 2022, o ajudou a formar um grupo. Na convenção na quarta-feira (5), Daniel Vilela disse que ele e Caiado formam uma “dupla política afinada”. Essa afinação contudo passou por um descompasso nas articulações que culminaram com a escolha de Luiz Carlos do Carmo (PSD) como candidato a vice-governador. O ex-senador tinha a preferência de Daniel e não a de Caiado. O tempo dirá se isso deixou sequelas.A esquerda não tem muito para onde correr. O mesmo levantamento da Quaest mostrou que 18% dos goianos são lulistas/petistas (10%) ou de esquerda não lulista (8%). Neste ponto Goiás se diferencia do cenário nacional. Aqui, o lulismo nunca teve um representante à altura nem mesmo para abocanhar os votos fiéis do presidente.Se a história se repete como tragédia e depois como farsa, Marconi vai reviver a eleição de 1998, agora com sinais trocados. Há 28 anos, ele era um jovem de 36 anos, sem experiência de gestão, e com alguns mandatos de deputado. Iris não teve sucesso nas tentativas de revanche, mas o MDB estará na urna com o jovem Daniel Vilela, de 42 anos, com pouca experiência de gestão, contra o experimentado Marconi. Como observa o cientista político Pedro Célio Alves Borges, a peculiaridade de Marconi é que ele precisa de um grupo político consolidado, coisa que não tem mais. O tucano está solitário.Caiado se movimentou muito nesse período. Pedro Célio acha que ele “herdou” o espólio político de Iris Rezende e que esse espólio o ajudou a formar seu grupo. Em outras palavras, o ex-governador está maior do que o partido onde escolheu Daniel “a dedo” e o “preparou” — para usar as palavras do locutor na convenção governista — para ser seu sucessor. Acontece que agora Daniel é o governador e mesmo que sua dupla política com Caiado siga afinada, divergências são naturais em qualquer grupo. Depois de 27 anos daquela eleição que levou Iris à derrocada, o simbólico 15 do MDB voltará à urna eleitoral, mas em um projeto político construído tijolo a tijolo por Caiado. Ele é o timoneiro desta eleição e se consolida como líder da força política contra o bolsonarismo e o marconismo. A esquerda será apenas testemunha.