A cerimônia de defesa da democracia, realizada no Palácio do Planalto nesta quinta-feira (8) para marcar os três anos dos ataques aos prédios dos Três Poderes, não deixou margem a dúvidas sobre quão falaciosa é a tese de que a anistia ou a redução das penas dos condenados pelos ataques vai pacificar o país. O primeiro ato em defesa das instituições ocorreu um dia após os ataques, em 9 de janeiro de 2023. Naquele momento prevalecia o choque nacional com o quebra-quebra. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reuniu os presidentes dos Três Poderes, parlamentares de vários partidos, e os governadores de 25 Estados e do Distrito Federal. Recuperando-se de uma cirurgia cardíaca, Ronaldo Caiado (UB) não foi, mas enviou o vice-governador Daniel Vilela (MDB).Três anos depois, não compareceram ao evento desta quinta-feira os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos/PB), do Senado, Davi Alcolumbre (UB/AM), nem do STF, ministro Edson Fachin. O ministro liderou eventos próprios no tribunal para marcar a data, que, contudo, passou em branco no Congresso Nacional. Os discursos de condenação dos ataques antidemocráticos e a preocupação com o Estado Democrático de Direito esmaeceram-se ao longo desses poucos anos. Na base dessas mudanças segue a resistente polarização político-ideológica e a antecipação da campanha eleitoral deste 2026 que levou os políticos para o palanque mais cedo do que devia. A divisão se revela cristalina.O presidente Lula não desceu dos palanques de 2022. O ex-presidente Jair Bolsonaro, até desceu, mas por ser forçado a cuidar de seus processos na justiça até ser preso em novembro. Todavia ele manteve sua família e seus apoiadores em ritmo eleitoral. Caiado começou suas andanças pelo país ainda em 2024 e lançou formalmente sua candidatura a presidente da República em abril de 2025. Todos os governadores de direita fizeram um realinhamento estratégico entre 2023 e 2026. Caiado é um exemplo característico dessa mudança. No dia dos ataques em Brasília, ele ofereceu forças de segurança estaduais ao governo federal, mandou a Polícia Rodoviária do Estado apreender ônibus com manifestantes nas estradas goianas e ofereceu 270 vagas em presídios de municípios goianos no entorno de Brasília para abrigar bolsonaristas presos. “Eu jamais na minha vida admiti a quebra do respeito ao Estado Democrático de Direito e aos poderes constituídos. Se situações como essas forem autorizadas, o Brasil entra em processo de desobediência civil”, disse em janeiro de 2023, uma postura de estadista em defesa da institucionalidade. O Caiado defensor da “lei e da ordem” deu lugar ao Caiado presidenciável. Ele parou de falar da depredação (que dizia ser inadmissível) e focou nas “penas desproporcionais”. Daí foi um passo para prometer anistia ampla, geral e irrestrita a Bolsonaro e aos demais condenados pela trama golpista.Caiado transitou da condenação “à quebra do respeito ao Estado Democrático de Direito” para a responsabilização do governo federal pelos ataques, supostamente por “incompetência” ou “omissão” proposital. Em nome de uma “pacificação nacional”, o governador que quis prender bolsonaristas em Goiás agora se propõe a abrir as portas das cadeias a Bolsonaro e a seus apoiadores. O ato de Lula desta semana, que atraiu só o público de seu nicho eleitoral, e a relativização do discurso da direita sinalizam que anistiar ou reduzir penas de golpistas não pacificará os lados da discórdia. A falaciosa pacificação é apenas rendição da “direita sem medo” – expressão do cientista político Marcos Nobre em referência à direita tradicional que aderiu ao bolsonarismo – aos golpistas que atentaram contra a democracia. Em 2023 a defesa da democracia pacificou temporariamente o Brasil. A distância dos acontecimentos, a campanha bolsonarista pela revisão da história que o Brasil testemunhou ao vivo e em cores pelas TVs abertas naquele 8 de janeiro, e estratégias para a campanha presidencial acabaram com a paz institucional. A paz se constrói em nome de um bem comum. A democracia foi esse bem há três anos. A anistia (ou redução de penas) é apenas um troféu que se oferece à extrema-direita que quebrou palácios em troca de votos nas urnas. Isso não é harmonia; é estratégia eleitoral.