Sexta-feira, 20 de fevereiro. O hotel fica a uma cuspida de Santa Maria del Fiore. Da sua cobertura -“rooftop”, no Brasil- quase dá para tocar a cúpula da catedral, obra arquitetônica que, como a Notre-Dame e a Basílica de São Pedro, maravilha sempre, por mais revisitada que seja.Subo os 440 degraus até o topo do Duomo, o maior do mundo na sua inauguração, em 1436. Dezenas de livros debatem como um octaedro pode se tornar, a 115 metros da base, um círculo; florestas milenares, uma estrutura de troncos; cordilheiras de barro, em 35 mil toneladas de tijolos.A intenção da insensata subida foi se aproximar da mente do seu arquiteto, Filippo Brunelleschi. Ele ganhou a concorrência para esculpir uma porta de bronze do batistério ao lado de Santa Maria del Fiore, mas o júri a entregou a Lorenzo Ghiberti.Aborrecido, Brunelleschi foi para Roma e lá ficou 20 anos. Melhor assim. Michelangelo disse que, por serem de tirar o fôlego, as portas de Ghiberti poderiam ser postas na entrada do Paraíso. O elogio pegou: são chamadas até hoje de “Portas do Paraíso”. E Brunelleschi voltou a Florença para criar o Duomo.Sábado. O cappuccino e o brioche são conquistas da civilização burguesa, mormente se saboreados pela manhã no balcão do Caffè Scudieri.Esta deve ser a cidade com mais sorveterias do universo. O que não tem mais são cinemas. Numa tarde chuvosa, há 30 anos, assisti aqui a “Underground”, de Emir Kusturica.Domingo. A Basílica de Santa Croce está a 15 minutos da de Santa Maria Novella. A primeira abriga o “Cristo Camponês”, de Donatello. A outra, o “Cristo dos Ovos”, de Brunelleschi. É uma boa distância para aferir o relato de Giorgio Vasari, historiador da Renascença.Donatello fez um crucifixo e pediu a opinião de Brunelleschi, seu amigo. Este respondeu que era um Cristo insólito, pois que rude, camponês. Donatello disse-lhe que criticar era fácil, que fizesse um melhor.Em segredo, Brunelleschi então entalhou um crucifixo. Ao ficar pronto, chamou o amigo para vê-lo, mas não contou o que era. Donatello estava com um monte de ovos. Ficou tão surpreso com a força do crucifixo que deixou os ovos caírem no chão.O “Cristo Camponês” é um indivíduo concreto, homem do povo. Já o “Cristo dos Ovos” tem as proporções harmônicas do homem vitruviano, é uma alegoria, um ideal.A entrada na capela do crucifixo de Donatello era proibida. Com olhar pidão, falei à senhora que a vigiava que eu viera do Brasil para vê-lo. “Dá uma rezadinha”, respondeu, instando-me a parecer pio. Contrito, ajoelhei-me diante da cruz e não orei.Segunda. De pé, mandei para o bucho um sanduíche de tripas no All’Antico Vinaio, afamada biboca na Via dei Neri. Angela, florentina nata e residente, contou que o estabelecimento, outrora típico, abrira 20 clones pelo mundo, inclusive Dubai. “Faz o marketing da autenticidade”, informou.Bondosa, Angela abençoou a Fiaschetteria & Trattoria Mario. Desde 1953 o dono rege a bagunçada cantina de mesas coletivas, vinho de garrafão e ossobuco de comer de olhos fechados, chorando lágrimas de sangue.Terça. O “David” de Michelangelo, na Accademia, nunca me disse nada no passado, nem hoje, no presente. Em compensação, “Os Prisioneiros”, as estátuas que projetou para o túmulo do papa Júlio 2º, dizem, e muito. São esculturas de mármore inacabadas, abandonadas, mesclas de natureza e cultura, escravos que querem sair da rocha e ser arte.Quarta. Jaz no segundo andar do Uffizi um Botticelli de primeira: “Fortitude”, a virtude moral aristotélica. A força, coragem e tenacidade são representadas por uma moça de semblante grave que, por baixo do vestido esplêndido, veste uma armadura. Segue o ditame do rei Lear: está pronta para o que der e vier.Quinta, 26 de fevereiro. O Maggio Musicale Fiorentino, teatro inaugurado há 15 anos com o que há do bom e do melhor em tecnologia para óperas, é posto a serviço do programa duplo clássico: “Pagliacci”, de Leoncavallo, e “Cavalleria Rusticana”, de Mascagni.Para um brasileiro, a noite é irreal. A plateia é de alunos de liceu e casais do século 19, recrutas de uniforme, frades de batina, aposentados de paletó puído, intelectuais de pashmina, madames com estolas de pele, imigrantes vindos de longe, velhinhos de pé na cova e libreto na mão.Chegam de ônibus, tramway, a pé. Revisitam a vingança violenta, sublimada pela música veraz e sublime do verismo. Quiçá um dia a arte de elite possa ser, senão de todos, ao menos de vários e diversos.