A morte de Jane Kellen Duarte da Silva — arrastada por uma cabeça d’água na Marginal Botafogo — é mais que um drama pessoal. A tragédia que ceifou sua vida, aos 44 anos, é resultado de omissões e decisões erradas do poder público em diferentes frentes. Jane Kellen vivia nas ruas de Goiânia. Há 15 anos nessa condição, mãe de três filhos, permaneceu à margem das ações destinadas a essa população. A Secretaria da Mulher, Assistência Social e dos Direitos Humanos afirma que a abordou em 2025, mas que ela teria se recusado a permanecer em uma casa de acolhida. Em pouco mais de um ano da atual gestão, as políticas públicas para esse público têm se mostrado questionáveis. Basta lembrar as idas e vindas do Centro POP. Mas Jane Kellen também foi vítima do desastre ambiental chamado Marginal Botafogo. Ao sufocar o córrego que lhe dá nome em caneletas, invadir áreas naturais de alagamento e eliminar a mata ciliar, a via transformou-se em uma armadilha, sem cumprir sequer seu objetivo principal: oferecer um mínimo de qualidade à mobilidade urbana. A morte de Jane Kellen não foi uma fatalidade inevitável, mas o desfecho previsível de uma cidade que falha em proteger os mais vulneráveis e insiste em agredir a natureza.