Em tempos marcados por dancinhas nas redes sociais e pela crescente superficialidade dos debates, a proximidade das eleições exige atenção do eleitor a um conceito cada vez mais negligenciado: a liturgia do cargo. Muito antes de seu uso religioso, na origem grega da palavra, “liturgia” designava funções desempenhadas por cidadãos em benefício da coletividade. Essa origem revela um sentido profundo: liturgia não é apenas forma de agir. É expressão de responsabilidade e respeito ao público. A liturgia do cargo não é detalhe, tampouco preciosismo. Ela expressa que o poder público não pertence ao indivíduo que o ocupa, mas à instituição que ele representa. Por isso, exige contenção, respeito e consciência de limites. Quando uma autoridade se manifesta, não é apenas uma pessoa que fala. É o próprio Estado que se expressa. Em uma democracia, não basta que autoridades cumpram suas atribuições legais. Espera-se delas algo mais: postura, linguagem e comportamento compatíveis com a função que exercem. Esse conjunto de elementos constitui a chamada liturgia do cargo, dimensão essencial da vida institucional e que atualmente se encontra visivelmente em declínio.