Salas de concerto e teatros líricos fecham na Semana Santa. É pena porque há músicas associadas à Páscoa que, de origem sacra, se libertaram da canga religiosa, ampliaram a expressão artística, inventaram novos modos de escutar música. Tocadas de graça em ambientes públicos e seculares, tais músicas celebrariam o triunfo da razão sobre os mitos. Mas, como as trevas avançam céleres sobre a luz, o que resta é apelar para traquitanas tecnológicas e improvisar uma playlist para o feriado. Johann Sebastian Bach foi diretor musical de quatro igrejas luteranas em Leipzig. Como compunha cantatas para serviços dominicais, e obras especiais para os dias santos, fez mais de mil músicas. Morreu em 1750 e foi esquecido. Mendelssohn o ressuscitou 80 anos depois e, de lá para cá, tornou-se um titã. “Paixão Segundo São Mateus”, de 1727, é um pico de sua obra colossal. Leva três horas, duas orquestras e três coros —um infantil— para contar o martírio do Nazareno. Mateus recita seu Evangelho e os outros personagens, o Messias à frente, entoam cantos agônicos.