Apenas 4 de 74 viagens realizadas pelo governo de Goiás em jatinho cedido pela Justiça Federal sob pretexto de reforçar atendimentos na saúde foram utilizadas de fato para o setor. O uso da aeronave ao longo de 2021 serviu majoritariamente para transporte do governador Ronaldo Caiado (UB) e da primeira-dama Gracinha Caiado e suas equipes para eventos e reuniões.Os dados são de relatório da Secretaria Estadual da Casa Militar, divulgado 1 ano e 4 meses depois de solicitação feita pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), que o governo se recusava a responder. O pouco uso para a saúde inclusive só ocorreu depois do registro do pedido do POPULAR, em setembro de 2021.Leia também: - MP-GO abriu inquérito por falta de transparência- Falta de legislação emperra 5G em Goiânia- Vanderlan e Wilder evitam falar deeleição para presidência do SenadoO Ministério Público Estadual (MP-GO) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-GO) haviam instaurado procedimentos no primeiro semestre do ano passado para apurar o descumprimento da LAI por parte do estado neste caso (leia reportagem abaixo). Internamente, a Controladoria-Geral do Estado (CGE) também cobrava a transparência da Casa Militar.As informações oficiais apontam 183 voos - considerando ida, volta e outros deslocamentos durante as viagens-, dos quais 30 serviram para transporte exclusivo da primeira-dama e auxiliares. Em duas ocasiões, houve uso para transporte de vacinas contra a Covid-19, ambas em julho de 2021. Foram registrados ainda dois transportes de enfermos, em outubro e dezembro daquele ano.Quando obteve autorização judicial para utilizar o Cessna Citation Aircraft, que havia sido apreendido em operação contra o tráfico drogas, Caiado disse que a aeronave daria “agilidade ao nosso serviço aéreo, no transporte de órgãos de pacientes graves e de enfermos por Goiás e pelo Brasil”.Nunca houve uso para transporte de órgãos, segundo o relatório, que inclui dados de maio a dezembro de 2021.A Polícia Federal do Distrito Federal também havia solicitado a cessão do avião, à época, mas o juiz federal substituto João Moreira Pessoa de Azambuja, da 11ª Vara Criminal da Seção Judiciária de Goiás, atendeu ao pedido de Goiás. Após a autorização, Caiado entregou ao juiz uma réplica da aeronave como forma de agradecimento.No requerimento a Azambuja, protocolado pela Procuradoria Geral do Estado (PGE), o governo estadual citou por duas vezes o que seria prioridade do uso do jatinho: “objetiva-se utilizá-la preferencialmente para o transporte de órgãos e transporte aeromédico” e “preferência por utilização em missões de caráter humanitário (transporte de órgãos e enfermos)”.A aeronave foi uma das três apreendidas pela Polícia Civil de Goiás em agosto de 2019, no que foi chamada à época de maior operação realizada na história da corporação. Batizada de Icarus, a operação desarticulou uma quadrilha internacional de tráfico de drogas, que utilizava Goiás como parte do trajeto, chamado de “rota caipira”.Além do Cessna, as forças policiais apreenderam outro jato executivo, modelo Dassault Falcon, e um helicóptero (Eurocopter EC 130). Este último também foi cedido ao Estado e igualmente teve a divulgação de uso em relatório, atendendo a pedido pela LAI.Uma foto que mostrou Gracinha “visitando” o Falcon depois da operação, divulgada pelo Giro, gerou polêmica na ocasião pelos questionamentos sobre qual o sentido da primeira-dama se envolver no assunto. As aeronaves estavam à época recolhidas no Hangar do estado.SaúdeEm 9 de outubro de 2021, o jatinho saiu de Goiânia levando uma médica e um enfermeiro, passou por Brasília, pegou dois passageiros e seguiu para São Paulo. A justificativa oficial da viagem foi “transporte de enfermos”, mas não há detalhes sobre o caso e nem explicação sobre por que o paciente saiu de Brasília.Em 7 de dezembro, a aeronave levou um médico e um enfermeiro de Goiânia para Porto Seguro, na Bahia, e retornou com mais dois passageiros policiais militares, no que também foi registrado como transporte de enfermo. Não há informação de quem seria o paciente.Os usos para transporte de vacinas ocorreram em 9 de julho, de Goiânia para Porangatu e Posse, e no dia 16 do mesmo mês, de Rialma para Porangatu, Posse, Campos Belos e Goianésia.Os dados mostram um registro de uso do jatinho para operação policial, em outubro de 2021, em viagem de Goiânia para Ponta Porã (MS). O voo levou seis policiais. O governo divulgou na época a apreensão de 2,5 toneladas de maconha e prisão de quatro suspeitos na operação conjunta de Goiás e Mato Grosso do Sul.Outros EstadosNas viagens para outros estados, estão seis para São Paulo. Em uma delas, Caiado viajou para fazer exames médicos, em agosto de 2021. Em outubro, o relatório registrou uma viagem de Gracinha, com a diretora-geral da Organização das Voluntárias de Goiás, Adryanna Caiado e duas médicas, para a capital paulista, com a seguinte finalidade: “transporte de autoridade e duas médicas para cirurgia de emergência após crise grave de saúde”. O relatório não informa quem foi o paciente.Também houve viagem a São Paulo para visita ao ex-prefeito de Goiânia e ex-governador Iris Rezende, em setembro. Ele morreu dois meses depois, em decorrência de AVC que sofreu em agosto daquele ano. Governador e comitiva também tiveram visita ao Google e acompanhamento de leilão de ações da Celg Transmissão (Celg T).O relatório mostra apenas uma viagem sem especificação de agenda pública do governador. Foi uma reunião com o prefeito de Catalão, Adib Elias, em outubro. A visita ocorreu dias depois de Caiado convidar Daniel Vilela, presidente do MDB, para a vaga de vice na sua chapa, o que provocou críticas de Adib. A viagem foi, portanto, para articulação política para as eleições do ano seguinte.HelicópteroO relatório de uso do helicóptero mostra 77 viagens em 2021, sendo sete com comitiva da primeira-dama. A filha de Caiado Anna Vitória utilizou a aeronave por três vezes, acompanhando o governador. Os voos também tiveram caronas para deputados e senadores.Todas as viagens tiveram como justitificativas inaugurações, vistorias e eventos no interior.RespostasO POPULAR solicitou resposta do governo de Goiás sobre o motivo de o avião ter sido utilizado em apenas 4 atendimentos à saúde, quando a prioridade seria o setor, mas não obteve resposta. A reportagem também pediu à Secretaria Estadual de Saúde (SES) dados da demanda por transporte de pacientes e de órgãos, mas a pasta informou que só seria possível concluir o levantamento esta semana.No ano passado, a reportagem questionou a SES se já havia utilizado as aeronaves cedidas pela Justiça ao governo e a resposta foi que não. A pasta informou ter convênio com o Corpo de Bombeiros para uso de aeronaves Seneca e helicóptero adaptados para atender transporte de órgãos, UTI aérea e transporte de vacinas, e que não utiliza a frota de responsabilidade da Superintendência do Serviço Aéreo de Goiás (Saeg), subordinada à Casa Militar. Também informou que há casos de pedidos à Força Aérea Brasileira (FAB).De acordo com a SES, não houve, por parte da pasta, qualquer solicitação ou utilização do jatinho e do helicóptero cedidos pela Justiça Federal, o que coloca não deixa claro a forma como foi definida a opção pelo transporte de enfermos em duas ocasiões no Cessna.Segundo dados de contratos do estado para seguro de aeronaves, disponíveis no Diário Oficial, a frota da Saeg inclui dois King Air Beech AirCraft, que também são jatos, e dois Senecas.A Justiça Federal informou no ano passado que o estado tem apenas de cumprir a determinação de contratar seguro e se responsabilizar pela manutenção e preservação, e que não monitora relatório de uso da aeronave.Em março do ano passado, quando O POPULAR reivindicava os dados, a Secretaria Estadual de Comunicação (Secom) disse que “ao contrário do que ocorria no passado com as aeronaves da Saeg, que eram exclusivas para o deslocamento de autoridades, por ordem expressa do governador Ronaldo Caiado, elas também passaram a ser utilizadas, quando necessário, em operações nas áreas de Segurança Pública, Saúde e Serviço Social, a exemplo das operações de caça ao foragido Lázaro, em apoio às vitimas de enchentes no Nordeste goiano e outras operações”. A resposta da Secom não falou especificamente das aeronaves cedidas pela Justiça ao estado.O governo não disponibilizou os dados sobre utilização dos aviões em 2022.