Apesar de reconhecer publicamente as regras da Justiça Eleitoral sobre pedidos de voto, o bispo Samuel Ferreira, presidente-executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (Conamad), utilizou de uma dinâmica comum a pastores evangélicos em suas pregações e reuniões para chamar a atenção do público sobre o pré-candidato à Presidência da República a ser apoiado. “Você pode dizer isso para quem está ao seu lado: ‘Se eu pudesse pedia voto pro Caiado?’”, afirmou o líder, durante a 51ª Convenção da Conamad, realizada nesta quinta-feira (16) na Assembleia de Deus Campo Campinas, em Goiânia. A máxima foi repetida por Ferreira em pelo menos outras seis vezes, conforme a reportagem registrou. Ele alegou que, em virtude das regras eleitorais, não poderia pedir votos aos fiéis.O encontro teve forte apelo político, com a presença de autoridades de todo o Estado - como parlamentares e integrantes do Executivo e do Judiciário goianos -, além de deputados e senadores de outros estados, e marcou a “oficialização” do apoio da Conamad à pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) ao Palácio do Planalto. Ferreira já havia declarado que endossava o ex-governador de Goiás no dia em que o goiano teve sua pré-candidatura lançada pelo PSD, no dia 30 de março. O bispo, que conduziu toda a reunião da convenção na manhã desta quinta, voltou a respaldar o goiano diante de uma plateia de quase cinco mil representantes assembleianos de todas as cinco regiões do País. Ele disse que Caiado é a representação da “terceira via” e valorizou a ideia do goiano de conceder anistia aos condenados por envolvimento nos ataques de 8 de janeiro de 2023.Em discurso de quase 30 minutos, o líder, além de pedir apoio a Caiado, também buscou endossar o governador Daniel Vilela (MDB), pré-candidato à reeleição ao Palácio das Esmeraldas. Ferreira fez a fala mais extensa da manhã, logo depois do discurso de Caiado, já perto do encerramento. O bispo pediu inclusive que a transmissão ao vivo fosse interrompida no momento e que os presentes não gravassem o conteúdo de sua prédica, uma vez que abordaria com maior ênfase a questão política.No discurso, o bispo, de tom monocórdico e que a todo tempo demandava pedidos à sua equipe, enfatizou o clima de polarização no País e falou do “risco” de a esquerda mais uma vez ganhar as eleições, já que o cenário apontado pelas pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como favorito no primeiro e segundo turnos. Ele classificou as pautas progressistas, como a defesa do aborto e a regulamentação de jogos, como ameaças aos valores cristãos e à integridade da igreja evangélica no País. PautasAo tocar nesses assuntos, Ferreira acabou repetindo boa parte das colocações de Caiado, que o antecedeu. “A qualquer hora, essa enxurrada de lama, se a gente não vigiar, vai passar sobre nós. Já bateu na trave uma porção de vezes. ‘Ah, por que vocês são contra os jogos?’ Porque com o jogo vem a droga, vem a prostituição e vem tudo o que não presta. Mais que isso, eles (a esquerda) têm prazer em fazer leis contra a igreja”, disse o líder religioso.E reclamou ainda do pouco esforço da esquerda para se aproximar dos evangélicos: “A Globo News me entrevistou. “Por que é que o senhor apoia o Caiado?”. Eu disse: “Porque ele é o melhor”. Simples assim. Mais que isso: quantas vezes o Caiado esteve aqui (na igreja) durante esse mandato, e quantas vezes a esquerda esteve?”, questionou Ferreira. Apesar de destacar esses contrastes, o bispo também fez seus acenos à esquerda no ano passado. Em 16 de outubro de 2025, o líder da Assembleia esteve no gabinete do presidente da Presidência da República, no Palácio do Planalto, para entregar uma Bíblia Sagrada a Lula. Na sequência, voltou a enaltecer Caiado em seu discurso, falando do potencial de comandar o Executivo do País. “Você quer conhecer um homem, faça duas coisas: veja como ele vive com a família e a segunda, dê poder para ele. O pé direito do Palácio revela o caráter do político”, afirmou Ferreira, para completar: “Caiado, eu sinto de Deus que o senhor vai ser o mais votado no primeiro turno.”Sem querer nomeá-lo por completo, o bispo falou ainda do ex-candidato a prefeito de São Paulo e empresário goiano Pablo Marçal (UB), criticando o modelo “persuasivo” do coaching de conquistar o eleitorado evangélico. E ainda disse que “na eleição tem muito diabo com a Bíblia”, sugerindo um “falso cristianismo” de Marçal.“Esse rapaz sabe de umas coisas que eu acho que nem eu sei. Pablo fala um bocado de coisa que às vezes eu fico na dúvida de fazer uma mentoria com ele, porque ele é sábio, ele é bom de negócio. Aí os crentes olham para aquilo e dizem: ‘Esse é um homem de Deus’. Não é. Quando Satanás foi treinar Jesus, ou testar Jesus, ou provar Jesus, ou tentar Jesus, o que é que ele usou? A Bíblia. Na mão do diabo, cuidado, irmão. Na eleição tem muito diabo com a Bíblia”, afirmou Ferreira.O bispo usou das críticas para reforçar a necessidade do que chamou de “obediência” à liderança da igreja, orientando os fiéis a votarem em Caiado e Daniel e afirmando que a estrutura da Assembleia de Deus Ministério de Madureira já se decidiu pela chapa governista logo no primeiro turno. “Eu sei que às vezes você pode não estar entendendo, mas a liderança dessa igreja sabe o que faz. Nós temos noção do risco que nós estamos correndo”, destacou.Quando pediu aos presentes para estenderem as mãos e orar por Caiado e Daniel, já no final, Ferreira ordenou que os fiéis repetissem: “Ronaldo Caiado, o senhor não está sozinho. Nós já entendemos, e a partir de hoje, pode marcar, a vitória é nossa. Madureira é pé quente. Até a vitória, em nome de Jesus.”