O lançamento da pré-candidatura do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) para a corrida presidencial de outubro repete o contexto de adversidades vivenciado na primeira disputa, em 1989, quando o goiano também enfrentou problemas para conseguir viabilidade partidária e eleitoral. Além das circunstâncias políticas, o discurso apresentado durante a pré-campanha neste ano retoma o mesmo mote ideológico e confronto à esquerda utilizados há 37 anos, mas com atualização dos temas prioritários.Caiado ainda depende de oficialização da candidatura na convenção do partido, comandado pelo presidente nacional, Gilberto Kassab, mas conseguiu avanço interno depois de ficar pelo caminho no União Brasil, que preferiu não ter nome próprio ao Palácio do Planalto, e considerar ofertas de Solidariedade e Podemos, que abrigariam o projeto nacional. Da mesma forma, o périplo por siglas marcou os meses anteriores ao processo eleitoral de 1989, que foi iniciado com o goiano sendo preterido pelo mesmo partido. Assim como para a corrida em 2026, o primeiro projeto nacional de Caiado partiu da própria intenção e persistência do agora ex-governador. Enquanto a atual pré-campanha foi iniciada logo após a reeleição ao governo de Goiás, em 2022, quando ele próprio passou a apontar o “sonho” de voltar a disputar a cadeira de presidente, a origem do pleito anterior seguiu roteiro semelhante, mas com deliberação da União Democrática Ruralista (UDR), que Caiado havia criado e presidia. Depois do aval da própria organização, o goiano passou a dar entrevistas e se apresentar como postulante ao cargo, mesmo sem ter um partido que abraçasse a ideia. Ao ser indicado como nome do setor agropecuário nacional para a corrida, em fevereiro de 1989, Ronaldo Caiado estava filiado ao PFL, que se tornou DEM e hoje é o União Brasil, após a fusão com o PSL. O médico e produtor rural ainda buscou espaço na legenda, mas foi preterido ao longo de todo o processo e sequer teve seu nome incluído na avaliação que escolheu o vice-presidente de João Figueiredo, Aureliano Chaves, como candidato. Caiado ficou fora da lista em prévia que contou ainda com o senador Marco Maciel e a deputada federal Sandra Cavalcanti. De olho no retorno do horário eleitoral gratuito, transmitido no rádio e na TV, em que mesmo partidos pequenos tinham direito a programas de dez minutos antes do início da campanha oficial, Caiado tentou levar o projeto ao PDC, que se tornou PSDC e hoje e DC e se filiou à legenda em maio de 1989. O partido, no entanto, estava dividido entre os grupos que apoiavam a candidatura própria, tendo José Maria Eymael como opção, outros que buscavam apoio a Leonel Brizola (PDT) e uma vertente que defendia aliança com Afif Domingos (PL) ou Fernando Collor de Mello (PRN), que acabou eleito. Entre os defensores de apoio a Brizola, estava o senador e presidente do partido Mauro Borges. Ao fim, o PDC se aliou a Afif e, novamente sem espaço, Caiado migrou em julho daquele ano para o PSD, que não tem relação com a sigla atual. Mesmo na nova agremiação, no entanto, o goiano não foi a primeira opção e só alcançou viabilidade partidária depois das desistências dos ex-presidentes João Figueiredo e Jânio Quadros, que foram primeiramente buscados pela legenda. Depois das decisões negativas é que o então presidente da UDR encontrou abrigo para a candidatura.A saída do páreo de concorrente interno também foi fundamental para que sobrasse espaço para Ronaldo Caiado no atual processo, já que a escolha do novo PSD, fundado em 2011, só beneficiou o goiano depois da saída do governador do Paraná, Ratinho Júnior, até então considerado favorito para representar a sigla.Então com 39 anos (faria 40 durante a campanha), Ronaldo Caiado foi confirmado para a disputa à Presidência da República para a estreia como candidato, com cinco minutos no horário eleitoral. A decisão foi homologada em convenção do Partido Social Democrático em 9 de Julho de 1989, no Parque da Cidade, em Brasília, com um churrasco que lançou a coligação denominada União Campo Cidade, tendo aliança com o PDN.Para a vice na chapa foi escolhido o economista e ex-presidente do Banco do Brasil, Camillo Calazans. Caiado participou de todos os debates promovidos pelas TVs Bandeirantes e SBT e obteve 488.872 votos, o equivalente a 0,68%, em décimo lugar entre os 22 candidatos no pleito. No segundo turno, apoiou Collor contra Lula (PT). A última pesquisa Genial/Quaest, publicada em março, mostrou o ex-governador com 4% das intenções de voto no primeiro turno. Em cenário de eventual segundo turno, aparece com 32% contra 42% do presidente Lula. O levantamento, porém, foi realizado antes do lançamento como nome único do PSD, com a desistência de Ratinho e vitória interna sobre o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. DiscursoA construção da atual pré-candidatura ainda encontra paralelo com o discurso propagandeado por Ronaldo Caiado em 1989, já que o ex-governador mantém como ponto central, desde o primeiro lançamento do pleito, em abril de 2025, a defesa por pautas da direita e ataques contra os governos petistas. A manutenção do mote, no entanto, conta com a atualização de temas considerados mais relevantes para o momento, como segurança pública, economia e inovação tecnológica, além da defesa de “experiência” para o cargo e apresentação dos resultados da gestão estadual em Goiás.Além da renovação temática, Ronaldo Caiado incrementou o discurso e agora busca se identificar como alternativa viável para “quebrar a polarização” entre Lula e o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). A inclusão do filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) entre os alvos de ataques, com foco na falta de experiência do parlamentar, mantém a busca do ex-governador, já tentada em 1989, de se diferenciar entre os concorrentes, mesmo aqueles que compõem o mesmo campo político. Ao relembrar a primeira candidatura, o goiano tem repetido que, de todos os postulantes àquela época, ele teria sido “o único que teve coragem de defender o setor produtivo primário, a agropecuária, direito de propriedade e economia de mercado”. Caiado completa alegando que “todos eram socializantes”, mesmo tendo na corrida direitistas como Collor, Enéas Carneiro e Paulo Maluf.Agora se definindo como “o mais longevo opositor ao PT”, o ex-governador liderou campanha antiesquerdista, tendo a frase “nossa bandeira não é vermelha” entre os slogans, durante a primeira eleição direta para presidente após o fim da Ditadura Militar. O goiano mirou no ataque às propostas de Lula e se nomeou “candidato da livre iniciativa” e “candidato dos desempregados”, em contraposição ao Partido dos Trabalhadores.A estratégia consistia em atacar os candidatos à esquerda, Lula e Leonel Brizola (PDT), que, naquela eleição, disputavam o segundo lugar em busca de vaga no segundo turno. “O Brasil tem que ser independente do marxismo e dependente apenas do Brasil”, afirmou o então candidato durante o polêmico ato de campanha que levou cerca de 5 mil pessoas para um “tratoraço” no Rio de Janeiro, marcado por brigas e conflitos com apoiadores de Lula e Brizola. Com menos ênfase nas pautas relacionadas ao agro ou a guerra contra o comunismo, o Caiado de 2026 mantém o embate ideológico, mas com foco em políticas duras de segurança pública, além da defesa de experiência administrativa e propostas nas áreas de tecnologia e inovação. Mesmo tendo apoiado Collor no segundo turno, o ex-governador agora usa o resultado da eleição de 1989 para defender a si próprio em comparação com Flávio Bolsonaro. “Deu no que deu”, disse o ex-governador, que votou contra o impeachment do ex-presidente, na Câmara dos Deputados, em 1992.Ao POPULAR, Caiado apontou a mensagem a ser levada ao eleitor: “Resgatar a autoridade, a moralidade, eficiência, produtividade e austeridade do estado. Como resgatar tudo isso? Restringindo a atuação do Estado enormemente, dando espaço para a livre iniciativa”. Parece 2026, mas a declaração data de 26 de fevereiro de 1989.