Escalado por Ronaldo Caiado (PSD) para costurar a interlocução com os evangélicos na corrida pela Presidência da República e atrair os votos do segmento, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) afirma que o goiano só vai conseguir ter sucesso em sua penetração nesse eleitorado se atacar temas de natureza conservadora, como o aborto e as drogas. Uma amostra, ele relembra, já foi apresentada por Caiado no discurso na 51ª Convenção Nacional das Assembleias de Deus - Ministério Madureira (Conamad), no qual obteve a “oficialização” de apoio da instituição presidida pelo bispo Samuel Ferreira. Fundador e líder do Ministério Missão de Vida, no Rio de Janeiro, Otoni já foi apoiador ferrenho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a quem parte do eleitorado evangélico endossou no passado. Agora, rompido com o grupo e apostando as fichas em Caiado como representante da direita, o parlamentar afirma que a vida pregressa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que aparece, segundo as pesquisas, como nome que deve ir ao segundo turno contra Lula (PT), vai vir à tona.Com isto, ele diz que pontos como o envolvimento com milícias dificilmente farão os crentes apoiarem Flávio. E que o planejamento para que Caiado seja conhecido pelo segmento, apesar de o goiano ser católico, inclui agendas em grandes eventos no país e inserção entre influenciadores e portais gospel. Já houve algum pedido do Caiado sobre como ele quer estruturar essa interlocução ou o sr. mesmo já indicou a ele como vai funcionar?O que vamos fazer, como nós temos pouco tempo, é levarmos ele para os grandes eventos que vão acontecer daqui até as eleições, o máximo possível de reuniões com os pastores, ou através de almoço ou de jantar, ou na participação dessas convenções em que os pastores já fazem mesmo. E tentar inseri-lo o máximo possível nesses canais de comunicação da igreja, que estão espalhados pelo Brasil e que são muito acessados pelos evangélicos. O sr. está falando daqueles portais da internet voltados para os evangélicos, tipo o site ‘Pleno.News’ e ‘O Fuxico Gospel’?Isso mesmo. E aí sentarmos com boa parte desses nossos influenciadores evangélicos para que a gente possa ampliar ainda mais o nome do Caiado.A Assembleia de Deus é muito grande e tem outros ministérios tão influentes quanto o Ministério Madureira. O sr. acha que esse apoio oficializado quinta-feira (16) pode garantir a vitória do Caiado, como ele mesmo falou em entrevista? Que quem os evangélicos apoiarem será eleito presidente da República?Eu não sei se isso garante, acho que seria muita prepotência nossa, mas vai ser um divisor de águas. Eu não tenho dúvida nenhuma de que daqui a umas duas pesquisas à frente, ou três pesquisas à frente, ou seja, até meados de maio, Caiado já vai estar passando desses 10%, e isso será fruto da visibilidade dele dentro das igrejas.Mas o Datafolha divulgado no último sábado mostra que, nesse recorte do voto evangélico, o senador Flávio Bolsonaro tem muito mais vantagem na pesquisa espontânea no voto dos evangélicos do que o Caiado, que tem 6% das intenções dos católicos e evangélicos.Eu analiso isso de forma muito positiva. 6% para o Caiado, que é o menos conhecido? Hoje o Caiado é o menos conhecido, mas ele também é o que tem menor rejeição - isso dentro de uma leitura profissional da política que diz que o céu é o limite para um candidato desse, porque ele não tem rejeição e o nível de desconhecimento dele ainda é muito alto. Ainda tem muita água pra rolar debaixo dessa ponte. E o mote da ideia dessa nossa pré-campanha na comunidade evangélica é mostrar para o público evangélico de que ele tem mais uma opção de direita, só que diferente, que ele tem uma opção na verdadeira direita. Em quem nunca votou em Lula e em quem tem currículo para apresentar. O que nós vamos mostrar para a nossa população evangélica é que no primeiro turno você vota no melhor, e no segundo turno você vota no menos pior. Então, nesse momento, nós temos que votar em Caiado, porque ele é o melhor. O que é que o outro lado tem de gestão? Só uma só uma loja da Kopenhagen.Os jornais mostram que o eleitorado evangélico votaria no Tarcísio de Freitas, quando ele ainda era uma opção para presidente, e que agora, esses votos migrariam para o Flávio. A pergunta é: o eleitorado evangélico vai votar então no Flávio ou no Caiado?Não tenho dúvida de te afirmar que vai votar no Caiado, não tenho dúvida. E por que não no Flávio? Por causa dos escândalos envolvendo o nome dele?Isso, essa projeção do Flávio, hoje ela é muito mais pelo antipetismo do que pelo Flávio. Olha só, essa projeção do Flávio tem dois fenômenos: o antipetismo, que está com consolidado, e a falta de opção. Era isso. Quando você tem agora uma nova opção, de alguém com crédito. Quando a gente começar a comparar o relacionamento do Caiado com a segurança pública com o relacionamento do Flávio com as milícias do Rio de Janeiro. Ou seja, não vai resistir por muito tempo. Isso é só comparar. A gente tem um candidato da direita que não pesa sobre ele nenhuma suspeita, nenhum desvio de conduta, que não pesa sobre ele nenhuma responsabilidade de nenhum processo por corrupção. Nenhum inquérito foi aberto contra o nosso candidato. A gente está falando de estatura política. É isso que vai ser falado dentro das comunidades evangélicas. E qual é o seu entendimento a respeito da política nas igrejas, visto que as duas últimas eleições trouxeram desgastes em muitas denominações, inclusive com membros deixando suas comunidades e migrando para outras denominações por conta do envolvimento político dos pastores com os candidatos e os governos? Eu sou o único parlamentar de direita a dizer que a igreja não é de direita e não é de esquerda. Eu estou apanhando até hoje. Eu fui taxado de traidor do bolsonarismo por conta disso. Eu sou o único cara que está apanhando no Brasil todo porque resolveu dizer que a igreja tem que orar pelo Lula. Independentemente de votar ou não no Lula ele é o presidente da República e você tem que orar por ele. Você pode manter as críticas políticas, mas não pode se esquecer de que você é igreja. Eu sou o único cara da igreja, político, que tem denunciado veementemente a desgraça que aconteceu em nossas igrejas, principalmente pelo bolsonarismo, porque a gente não tem como culpar a esquerda e nem o lulismo pelo que aconteceu em nossas igrejas. Essa radicalização foi bolsonarista.Mas neste ano como vai ser? O tema ainda é frágil para os evangélicos, não?Menos, acho que menos. Eu acho que vai ter menos impacto, que vai ter menos aquele bolsão de ódio. Acho que o que a gente viu, a gente não vai ver de novo. O sr. concorda com a tese que vem sendo discutida por muitos pastores, em muitas igrejas, de que a mistura dos evangélicos com a política não tem surtido o efeito que se esperou lá no passado, quando os evangélicos começaram a entrar mais na política?Claro que não está surtindo o mesmo efeito. Por quê? Porque nós tomamos lado. Antes o nosso lado era só o lado dos nossos princípios e dos nossos valores. Agora o nosso lado ficou ideológico. Deus é de direita, Jesus Cristo é de direita. Aí estragou tudo, irmão. Por quê? Porque nós passamos a ter uma pauta de poder. Antes nós não tínhamos uma pauta de poder, nós tínhamos uma pauta de influência. E nós passamos a ter uma pauta de poder. Aí é que nós pecamos, aí é que nós erramos.Ainda sobre o Caiado: ele é católico. A gente sabe que existem divergências doutrinárias e teológicas entre os evangélicos e católicos no país. Como o discurso do Caiado vai ser trabalhado para falar aos evangélicos sem que ele cometa deslizes? O que dá para esperar?Não vejo resistência nenhuma. Até como exemplo, o próprio Bolsonaro, que nunca foi evangélico. Agora, diferente do Bolsonaro, o Caiado é realmente um católico. Então, não vejo nenhuma dificuldade nesse sentido. Somente a ala radical da igreja vai ver no Flávio isso: um candidato evangélico. E essa ideia de que nós vamos ter aí o primeiro presidente da República evangélico, e tal, mas é só uma ala radical mesmo da igreja. A gente está falando das igrejas pentecostais, como é o caso da Assembleia de Deus, e de certa forma das mais contemporâneas. Mas como fica a discussão quando falamos das igrejas históricas, como a Presbiteriana, a Batista, a Luterana?As que não são pentecostais são menos dadas a esses delírios de paixões políticas. Elas são muito mais comedidas, tanto que a força do bolsonarismo está no pentecostalismo. Quando você sai do pentecostalismo, há um bolsão de resistência ao próprio bolsonarismo e há apoio maior a Lula, justamente nessas igrejas presbiterianas, metodistas, anglicanas. Mas com essas igrejas nós vamos conversar também, da mesma forma.A ideia nesse caso não é levar o Caiado para eventos dessas igrejas históricas?Não, não. Essas igrejas, elas costumam abrir os seus concílios de pastores. É algo mais interno. Mas elas vão ouvir o Caiado também da mesma forma, mas elas não fazem isso que a Assembleia de Deus faz.No discurso do Caiado na Conamad, ele falou muito de família, tocou em aborto, drogas, bets, assuntos que ele não costuma abordar. Todas as vezes que a gente ver, daqui pra frente, o Caiado falando a evangélicos, podemos esperar ele abordando esses assuntos?Sem dúvida alguma, porque são assuntos da pauta moral, da pauta de costume. Se ele quiser falar a esse eleitorado e ter aderência entre eles, vai ter que tocar nesse assunto, sem dúvida alguma. O que não pode é ele apoiar o aborto aqui fora e aí falar contra lá dentro. Como ele não tem essa postura, não há nenhum efeito rebote, porque são assuntos que ele pode não reverberar, até porque não há nenhum interesse dele em ficar reverberando para aquele tipo de público, para aquele tipo de eleitorado. Agora, para o eleitorado evangélico, ele vai ter que falar sobre isso, vai ter que se comprometer com essas pautas.E o que mais pode entrar no discurso dele, além do aborto, bets e drogas?Eu acho que é uma política pública de consolidação da família. De apoio à família, mostrando de que o papel da família, que é esse papel tradicional da nossa sociedade, vai ser fortalecido com políticas públicas. E eu não estou falando só de política de costume, eu estou falando de políticas públicas que realmente valorizam as famílias. Ele pode levantar aí uma bandeira, que eu estou propondo isso a ele, das escolas das escolas cívicas brasileiras, que não é escola militar.O que seria, então?Seria uma escola… Eu tenho 49 anos e eu ainda peguei a fase da educação moral e cívica OSPB, que eram aquelas matérias que saíram quando o Fernando Henrique tornou-se presidente da República. Era graças a essas matérias que nós tínhamos todo o processo de formação educacional da nossa juventude. Aquilo que faltava em casa de esteio moral, a escola completava através do próprio civismo. Eu aprendi de que eu tinha que levantar quando eu estivesse no ônibus para que o adulto sentasse na escola também, você tinha esse tipo de comportamento. Passa por aí. O sr. vai acompanhá-lo em todas as agendas?Não porque eu sou pré-candidato no Rio. Essa é a minha reeleição. Então eu não tenho como acompanhar, mas pelo menos nessa pré-campanha eu vou acompanhar boa parte dessas agendas, e as que eu não conseguir acompanhar a gente vai já deixá-las pré-estabelecidas.