País minúsculo em território, 45 mil km2 de área no norte da Europa, a Estônia se tornou referência em transformação digital, iniciada nos anos 1990, com investimentos em computadores na rede de ensino e em serviços públicos online. Iniciativas deflagradas pelo ex-presidente Toomas Hendrik Ilves (2006 - 2016), que veio a Goiânia compartilhar as experiências do país europeu. A inovação promovida na nação báltica resultou em avanços como maior segurança digital, transparência, redução de custos e da corrupção. “A Estônia tem um dos menores índices de corrupção do mundo. Quando se olha para a transparência internacional, nós somos 10º no mundo e 6º na União Europeia. A maioria dos países que saíram do comunismo são muito ruins nisso, e nós somos muito bons”, situa Ilves. Vale lembrar que o país só recuperou sua independência com o fim da União Soviética, em 1991, após mais de 50 anos de ocupação. A explicação para esses resultados é simples, segundo ele: “Você não pode subornar um computador. Se pode fazer (o serviço) online, consegue-se reduzir a corrupção. Em meu país, não existe interação entre o indivíduo e o Estado que não pode ser feita digitalmente. Até divórcio” (último dos serviços públicos que foram digitalizados na Estônia). O ex-presidente da Estônia esteve em Goiás até esta sexta-feira (13) para participar do Convergência, evento nacional para debater soluções inovadoras voltadas à melhoria dos serviços públicos, correalizado pelo Governo de Goiás. O convite foi feito pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), como parte da interação com o país báltico iniciada em maio de 2025, durante a missão oficial liderada pelo vice-governador Daniel Vilela. A agenda internacional teve como foco o intercâmbio de boas práticas em transformação digital, inovação pública e modernização do Estado. “A transformação digital facilita a vida das pessoas, que não precisam pegar um pedaço de papel e ir de um lugar para o outro para resolver coisas que poderiam fazer em um minuto de sua própria casa. Na Estônia, acreditamos no governo como serviço. É o governo que presta um serviço para as pessoas, e isso precisa ser eficiente. Além disso, um país completamente digital economiza muito dinheiro e reduz muito a corrupção”, enfatiza o ex-presidente. Os benefícios dos investimentos em digitalização compensam em termos econômicos e de qualidade de vida, atesta o ex-presidente. Ele conta que a instalação dos computadores em todas as escolas da Estônia nos anos 1990 teve custo dividido entre o governo e as municipalidades. “Então, é difícil precisar o custo real do que foi feito. O que podemos dizer é que, em 1992, tínhamos um PIB per capita de 2.849 dólares e hoje aumentamos muito esse número (31.000 dólares). Lembrando que somos um país pequeno — pouco menor que Goiânia”, comenta o ex-gestor. Replicar modeloApesar das grandes diferenças, Ilves acredita possível replicar no Brasil, e em Goiás, medidas bem-sucedidas adotadas em seu país. O ex-presidente avalia que Goiás já está fazendo isso, adaptando as boas práticas à sua realidade. Isso é importante, destaca: levar em conta a cultura local. “Não se pode pegar um modelo de outro lugar e aplicar. Essa é a primeira questão”, indica. A segunda questão apontada por ele é que é preciso coragem política para fazer. “Se um país realmente quer fazer, é necessário ter alguém com autoridade para comandar este processo, o que no termo em latim chamamos de primus inter pares. Por quê? Porque um ministro da inovação pode tentar fazer, mas ele não pode mandar no ministro da agricultura, para dar um exemplo. É preciso alguém que esteja acima na hierarquia, que não seja o presidente ou o primeiro-ministro, porque eles não vão fazer isso eles mesmos. Isso é como fazer funcionar em nível de governança”, discorre. Além disso, o ex-líder da Estônia diz que é necessário ter concordância da maioria dos partidos para que, uma vez havendo troca de governo, o próximo presidente ou governador não considere aquela política ruim e, de repente, pare tudo. “Vemos isso nos Estados Unidos, onde (o ex-presidente Barack) Obama criou uma política de transformação digital e, quando (o atual presidente Donald) Trump chegou, disse: ‘Isso tudo é estúpido’, e jogou tudo fora. Já vi isso em outros países também. É uma questão passível de ocorrer na democracia. A China não tem esse problema (risos). Mas, se você vive em uma democracia, é necessário esse acordo partidário para que haja consenso.” IA com autonomia A inteligência artificial vai aumentar a eficiência da prestação de serviços, mas ainda é preciso entender a forma, analisa Ilves, observando que na Estônia teve início o serviço de prescrições médicas digitais, hoje já existente em 12 países da União Europeia. “Se eu ficar doente em Portugal, eu ligo para o meu médico, ele me receita uma penicilina, eu levo a receita na farmácia e pego o medicamento. E lá (no sistema) tem os meus dados médicos”, ilustra. Ele arrisca projeção: “Com a inteligência artificial, chegaremos ao ponto em que a IA tendo acesso a esses dados, conseguirá prever a necessidade de uma consulta médica, por exemplo? Ou de um medicamento? Acho que poderemos chegar neste ponto. Isso já é algo discutido no âmbito da Agentic AI (IA Agêntica), onde governos podem deixar de apenas digitalizar processos para adotar sistemas de IA com autonomia para agir”. Para saltos como esse, porém, a Estônia segue uma legislação rigorosa de proteção de dados e segurança, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados da Europa (GDPR, na sigla em inglês). A lei determina padrões que garantem que o setor público e as empresas protejam as informações dos cidadãos contra vazamentos e violações de privacidade. “Regulação é importante e segurança digital é essencial. Mesmo no processo de transformação digital, o indivíduo precisa confiar no uso de seus dados por parte dos sistemas. Um exemplo: na Estônia, nós desenvolvemos um sistema descentralizado para guardar os dados. Fizemos isso lá atrás, de maneira instintiva e porque era a única maneira que conseguimos, mas isso se mostrou, depois, muito acertado do ponto de vista de segurança digital. Nós chamamos esse sistema de X-Road. Nós não guardamos todos os dados dos cidadãos em um só servidor. Isso é perigoso. A tecnologia que usamos permite que os vários sistemas conversem entre si, com criptografia e blockchain, para garantir que ninguém, nem mesmo o governo, altere os registros de quem acessou quais dados e quando. Então, se alguém invadir um dos sistemas, ele não tem acesso a todos os dados. Isso dá segurança. Outro fator: no caso dos dados médicos, apenas eu e o meu médico temos acesso aos dados. Ninguém mais. Um exemplo: se uma pessoa tiver o tipo sanguíneo O, e alguém entrar lá e mudar para A, quando essa pessoa precisar ir ao hospital, ela pode morrer. Então, a segurança é essencial”, argumenta. Insight de um geek O ex-presidente da Estônia conta que aprendeu a programar em 1971 e que embora nunca tenha ingressado na área da tecnologia, levou consigo esse conhecimento e continuou sendo um geek. Em 1993, recebeu de um amigo um email falando: “Olha que interessante”. Era sobre o Mosaic, um dos primeiros navegadores para a internet. “Eu fui a uma loja, comprei sete disquetes e instalei. Eu nunca havia visto nada assim antes e vi, ali, a solução para meu país porque aquilo estava começando e, por isso, naquele momento, estávamos no mesmo patamar que todos os outros países naquela área. Ninguém havia começado o trabalho de transformação digital”, recorda-se. A prioridade então era ensinar as crianças a usarem um computador. “Propus ao governo instalar computadores em todas as escolas e, no fim daquela década, começamos a fazer o processo de transformação digital do país, implementando ações de segurança digital, enquanto fazíamos tudo.” Na sequência, em 2001, foi lançada na Estônia a primeira carteira de identidade digital (um cartão com um chip), o que garantia segurança digital para acesso aos serviços públicos. “Todos precisamos ter uma, se queremos ter um país digital: ela precisa ser única, segura, ter autenticação de dois fatores e criptografia de ponta a ponta. Isso é sine qua non para o processo de transformação digital”, ressalta. “A esta altura, nós já estávamos muito à frente de todos os outros países do mundo. O próximo passo, em 2004, foi oferecer serviços online: o primeiro que fizemos foi o serviço de tributação. Isso facilitou a vida das pessoas, que ficaram felizes em ter facilitado o pagamento de seus impostos, e este foi o início do processo de transformação digital dos serviços públicos, porque as pessoas passaram a confiar no sistema. Depois, expandimos.” Membro da Otan (aliança militar do Ocidente), a Estônia enfrenta hoje, com seus vizinhos bálticos, os impactos da invasão russa na Ucrânia e ocupa o segundo lugar, atrás da Dinamarca (3,9%), no ranking de maior auxílio proporcional ao PIB do país (3,6%) aos ucranianos. A guerra impulsiona ou trava inovações? “Aumenta bastante o desenvolvimento tecnológico. Basta pegar Israel como exemplo: o país é o que é atualmente porque precisou desenvolver a tecnologia necessária para sua defesa. O mesmo vale para os outros países.”