Dos Estados Unidos, o bispo Samuel Ferreira, presidente-executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (Conamad), entrou ao vivo por videoconferência na entrevista coletiva em São Paulo que confirmou o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado como pré-candidato à Presidência da República pelo PSD, na última segunda-feira (30). “O Brasil não pode viver num extremo nem da direita, nem da esquerda - e aqui não agredimos pessoas, e sim posicionamentos. É hora do Brasil viver no centro. (Ter) alguém centrado, alguém competente e (que) tenha a posição firme”, disse Ferreira, para então declarar apoio ao projeto de Caiado: “A ele o meu abraço, o meu voto, o meu trabalho, e onde chegar a nossa influência, nós estaremos junto dos milhões de pessoas que frequentam semanalmente nossos cultos, nós estaremos, dentro daquilo que a legislação permite, do lado de fora dos templos, pessoalmente, conversando com o povo.”Além de Caiado e do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, o líder evangélico fora o único a fazer o uso da palavra no ato, onde procurou elogiar o goiano e marcar sua própria posição religiosa ao enumerar, de forma categórica, os 42 mil templos e os 102 mil pastores que hoje compõem, segundo ele, o conjunto da igreja Assembleia de Deus, considerada a maior denominação do País. Ao acenar a Caiado, Ferreira - que cinco meses antes, em 16 de outubro de 2025, esteve no Palácio do Planalto para orar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e entregar uma Bíblia Sagrada ao petista -, destacou como ativos do goiano a experiência política e profissional, enfatizando termos como “homem de composição”, “homem cristão”, “de família” e “bem casado”, repetindo, em seguida, frases de efeito de tom vitorioso sobre a pré-candidatura do ex-governador. A cena que se desenrolou ao final do anúncio da entrada de Caiado na corrida pela Presidência lança luz sobre o peso dos evangélicos e a relevância do voto do segmento nas eleições deste ano, ao mesmo tempo em que também reforça o questionamento sobre qual a tendência do comportamento eleitoral desses religiosos, levando em consideração as eleições de 2018 e 2022.Não à toa, uma das primeiras ações do goiano ao ter oficializada sua pré-candidatura a presidente foi a de escalar o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) para ajudá-lo a se comunicar com os evangélicos. O parlamentar tem histórico político antagônico, com apoio a Bolsonaro em 2018 e até aconselhamentos a Lula a respeito dos evangélicos, em meio às tentativas do petista de se aproximar de lideranças religiosas.Apesar de os brasileiros que se dizem católicos (56,7%) ainda representarem a maioria da população, o Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que a religião evangélica foi a que mais despontou no País, alcançando 26,7%. São eles que também demonstram, de acordo com os levantamentos dos institutos de pesquisa, maior rejeição ao governo Lula e preferência a nomes da direita. Evangélico, o antropólogo Raphael Khalil, coautor do livro “Crentes: pequeno manual sobre um grande fenômeno”, ao lado de Juliano Spyer e Guilherme Damasceno, avalia que, embora haja sinais de redução da radicalização no debate político entre evangélicos, o discurso de moderação ainda deve ser visto com cautela nas eleições de 2026. “Percebo um pouco menos de radicalidade e uma polarização mais forte”, afirma, apontando que os dois polos, esquerda e direita, “vão tentar parecer menos radicais”. Por outro lado, Khalil vê com ceticismo a capacidade do campo progressista de ampliar a penetração entre os evangélicos no curto prazo. “Enquanto eles usarem a mesma estratégia que tem sido utilizada, não vai funcionar”, afirma. Para ele, falta construção de um relação contínua, o que torna os acenos eleitorais pouco eficazes.Lideranças de diferentes denominações ouvidas pelo POPULAR adotam certa moderação em relação à escolha política dos fiéis, alegando que as instituições religiosas não têm o papel de interferir no voto deles, mas também não descartam o peso das discussões eleitorais, seja nos púlpitos ou mesmo fora do ambiente eclesiástico. “Não abriremos mão do nosso direito de orientar os nossos membros, mas, como sempre, os mesmos são livres para votar”, diz o bispo Oídes José do Carmo, presidente da Assembleia de Deus Campo Campinas e também da Convenção Estadual dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus de Goiás (Conemad-GO). Com penetração que vai da capital até os rincões do estado, justamente pelo fato de ser a maior denominação evangélica do Brasil, a Assembleia de Deus goiana é destacada pela forte influência política, com nomes oriundos da igreja eleitos para cadeiras nos Legislativos municipal, estadual e federal, além do apoio dado abertamente às lideranças do Executivo - a instituição realiza regularmente eventos e cultos com a presença das autoridades locais, e já recebeu, em 2021, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Para Oídes, esse alcance é resultado de uma conscientização política que os evangélicos passaram a tomar nos últimos anos. “Pouco a pouco, nós, os evangélicos, fomos entendendo que a fé não nos torna um povo alienado, e que a igreja, como agente de transformação da sociedade, tem muito a contribuir com a boa política”, resume o líder assembleia. BandeirasA avaliação de que os evangélicos dificilmente devem apoiar candidaturas progressistas é praticamente unânime, já que, dizem esses líderes, são os nomes ligados à direita que acabariam por ecoar e defender de forma mais fidedigna as “bandeiras cristãs”. “Não tenho a menor dúvida que a grande maioria dos votos dos cristãos evangélicos será mais à direita devido aos princípios em comum. A defesa desses valores, como defesa da família, defesa das crianças, liberdade religiosa e de opinião, entre outros, são muito caros para os cristãos e geralmente são os candidatos de direita que mais defendem. Claro que não é unânime, mas sem dúvida a maioria”, afirma o ex-deputado federal Fábio Sousa, bispo na Igreja Apostólica Fonte da Vida, cuja sede fica em Goiânia.Vereador de Goiânia e pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Isaías Ribeiro (Republicanos) ecoa a frase “crente de verdade não vota na esquerda”, apesar de admitir ter votado em Lula e em Dilma Rousseff (ambos do PT) no passado, anos depois, afirma ter reconhecido em Bolsonaro o “nome que mais se aproximou dos valores cristãos”. Ribeiro diz acreditar que a esquerda sai beneficiada em estados do Nordeste, apontando que os índices de desigualdade social e os benefícios sociais concedidos pelo governo federal seriam preponderantes na escolha. “Já no Rio Grande do Sul, a direita prevalece. O nível de poder aquisitivo é maior. Acredito que isso varia muito”, afirma o parlamentar. “Mas a gente tem que saber diferenciar muito a pessoa que é politizada do cidadão comum. A pessoa que é politizada, ela sustenta muitas vezes algo que ela nem acredita. O cidadão comum não. Ele vota por aquilo que acredita, os valores, e as ideias”, complementa. Sousa tem suas ressalvas com a esquerda, por, diz, afrontarem os princípios cristãos. “É inegável que há princípios do comunismo e da esquerda que não compactuam com os princípios bíblicos. Quem falou isso inclusive foi Karl Marx em seus escritos. Mas não posso julgar a intenção do coração de alguém e dizer que ele é o não cristão de verdade. Jesus não é de direita ou de esquerda ou de centro. Jesus é Jesus, e está acima disso”, diz bispo da Fonte da Vida. “O radicalismo é ruim para todo lado - seja de esquerda ou de direita. Eu tenho pregado que a gente tem que ter mais tolerância com os conjuntos, respeitar o diferente, pois a democracia é feita de acordo com a vontade da maioria. Essa conscientização está muito maior hoje dentro das igrejas. Já foi bem mais radical”, afirma o também vereador de Goiânia, Welton Lemos (SD), que é pastor da Igreja Bethel da capital. Definição de votoKhalil enfatiza o fator da “imprevisibilidade” dentro do cenário evangélico, destacando que mesmo que os pastores e demais lideranças endossem abertamente um candidato, isso não significa que os fiéis irão necessariamente votar no nome indicado. “Mesmo, por exemplo, o Samuel Ferreira apoiando o Caiado, não significa que sua igreja irá apoiar. Claro que com a campanha pode resultar em apoio, mas por isso é imprevisível”, diz o antropólogo.Os líderes evangélicos são praticamente unânimes em reconhecer que o ambiente tende a realmente se polarizar nas eleições e acabar por reeditar o que foi visto nas duas últimas eleições presidenciais. Entretanto, eles reforçam apelos de paz, até porque a radicalização “deixou marcas entre os fiéis”. “Torço para que, apesar da polarização, todos saibam como conviver. O Evangelho ensina a conviver em paz com todos os homens, defendendo a verdade, mas em paz”, afirma Fábio Sousa. “Espero a eleição de um presidente que seja capaz de unir o povo brasileiro, acabando com a polarização doentia em que o País se encontra”, reflete Oídes.