A Secretaria Estadual da Economia de Goiás afirma que ainda tentará aprovar este ano o empréstimo de 90,36 milhões de dólares (cerca de 470 milhões de reais) do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), depois do revés da última quinta-feira (3), quando o governo federal não enviou ao Senado a mensagem para autorização do financiamento para o Estado. Ainda que autorizado este ano, os repasses só poderão ser feitos em 2027, por conta da norma que impede contratação nos últimos 120 dias da gestão.Com o fracasso no avanço do processo, o governo atual (gestão do ex-governador Ronaldo Caiado, do PSD e do atual Daniel Vilela, do MDB) vai se encerrar, em dezembro de 2025, sem captação de nenhum empréstimo.O POPULAR mostrou no dia 31 de agosto que o governo goiano estava otimista com a aprovação no Senado, diante de articulação liderada pelo senador Vanderlan Cardoso (PSD) na Casa. O financiamento refere-se ao Programa de Modernização da Gestão Fiscal (Profisco III). Todas as etapas burocráticas haviam sido superadas, restando apenas a autorização em Brasília.Vanderlan havia acertado com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), que o projeto de resolução iria direto para o plenário - em vez de passar pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) - para agilizar a votação. O Congresso fez esforço concentrado na semana passada por conta das eleições e não deve voltar a ter sessões deliberativas presenciais até outubro.Vanderlan também afirma que contava com compromisso feito pela líder do Governo no Senado, Teresa Leitão (PT/PE), de que a matéria seria encaminhada à Casa até o prazo final, sexta-feira (4).A ausência de encaminhamento fez surgir suspeitas entre governistas de Goiás sobre ingerência política, em suposta retaliação aos posicionamentos do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), candidato à Presidência da República. Além dos ataques ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, Caiado fez críticas a Alcolumbre na semana passada ao cobrar do Senado a abertura de processo de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), depois das revelações de mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, ao ministro.Na sessão de quinta-feira, Alcolumbre chegou a citar o acordo, anunciando que esperaria a matéria ser enviada. “A senadora Teresa Leitão está tratando de uma demanda do Estado de Goiás, pela liderança do Governo, de uma solicitação do nosso colega senador Vanderlan Cardoso, que é uma mensagem de empréstimo para o Estado de Goiás. Nós estivemos, no decorrer da semana, tratando desse assunto. A líder do Governo está tratando no governo, e eu fiz um compromisso com Vanderlan de que, se essa matéria chegasse no dia de hoje, nós a deliberaríamos diretamente em plenário”, disse, acrescentando que a tramitação havia sido simplificada “pela importância do financiamento para o Estado de Goiás.A fala ocorreu às 17 horas de quinta. A sessão foi encerrada às 20h36, finalizando o esforço concentrado, sem novas declarações sobre o projeto.A secretária estadual da Economia, Renata Lacerda Noleto, afirma não ter explicação para o não envio do projeto. “Não há nada que justifique. Estava tudo redondo, prontinho pra já ter sido encaminhado”, disse.Ela afirma que o governo protocolou na semana passada consulta à Chefia de Gabinete da Casa Civil da Presidência da República sobre o estágio de deliberação, mas ainda não obteve resposta.Vanderlan também disse não ter recebido justificativa do governo federal. Ele afirma que Alcolumbre garantiu espaço para a votação quando a mensagem chegar à Casa, de forma a deixar o processo pronto para assinatura do contrato em 2027.ProfiscoA primeira etapa para a adesão do governo de Goiás ao Profisco foi cumprida em setembro de 2024, quando a Comissão de Financiamentos Externos (Cofiex), do Ministério do Planejamento e Orçamento, aprovou o pleito da gestão estadual. Nos meses de julho e agosto deste ano, a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) deram pareceres favoráveis.Os recursos do Profisco III são voltados, segundo o governo goiano, à modernização da administração tributária, da gestão fiscal e da gestão de pessoas no Estado, envolvendo de forma integrada as Secretarias da Economia e da Administração e a Procuradoria-Geral do Estado, em meio a cerca de 50 projetos.“O programa contempla a digitalização de serviços públicos ofertados pela Economia, com foco em ampliar o atendimento on-line ao cidadão e reduzir a necessidade de deslocamentos presenciais, além da implantação de um novo portal integrado de serviços”, informou a Secretaria da Economia em abril.O pacote também prevê modernização de sistemas de planejamento, orçamento e tesouro, além de compras públicas e da folha de pagamento.O governo goiano havia sancionado lei em julho, com mudanças em norma de junho de 2025, que autoriza a contratação do empréstimo e com alterações em contragarantias à União.A operação prevê 10,1 milhões de dólares de contrapartida do governo goiano. A minuta inicial do contrato estimava liberação de 692 mil dólares em 2026, com salto nos anos seguintes, chegando a 27 milhões de dólares em 2028. O último aporte ocorreria em 2031.Segundo a minuta, o empréstimo tem prazo de carência de 72 meses e amortização de 222 meses. Os juros são definidos por taxa de referência do mercado financeiro norte-americano (SOFR), acrescido de custo de captação (funding margin) e spread (margem relacionada a remuneração, risco e custos da operação) divulgados periodicamente pelo BID.HugoO governo goiano também havia fracassado na tentativa de obter empréstimo para pagar os R$ 500 milhões da compra de novo prédio para o Hospital de Urgências de Goiás Dr. Valdemiro Cruz (Hugo), no Conjunto Fabiana, em Goiânia.A operação era pleiteada na linha de financiamento para a saúde do Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS Saúde), com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).Daniel Vilela informou que, caso seja reeleito, seguirá com o processo de pedido de empréstimo, mas que utilizará recursos do Tesouro Estadual este ano para pagamento da primeira parcela, de seis, para comprar o prédio.No caso do BNDES, o governo afirmou que o prazo foi curto para os trâmites burocráticos e descartou ingerência política para dificultar a aprovação.O edital de chamamento público para propostas de investimentos do FIIS, lançado pela Casa Civil da União, teve reabertura de uma semana, a partir de 30 de junho deste ano, e a gestão estadual se inscreveu no último dia, em 6 de julho.Na reabertura, o edital passou a incluir possibilidade de aquisição de imóvel, atendendo a demanda do governo goiano. Além disso, a gestão considera que os órgãos do governo federal foram ágeis na devolução de pareceres. O processo só deixou de ser apreciado no próprio BNDES.Durante os últimos quatro anos, Caiado tentou viabilizar operações de crédito, mas os processos não foram concluídos. Os principais entraves foram as limitações impostas pelo Regime de Recuperação Fiscal (RRF) e a burocracia envolvida na liberação dos recursos.A única operação que a gestão de Caiado conseguiu concretizar ocorreu para substituir um outro financiamento em condições mais vantajosas, em contrato de reestruturação de dívidas. Em 2022, o Estado recebeu 510 milhões de dólares (cerca de R$ 2,5 bilhões) do Banco Mundial para substituir empréstimo que havia sido contratado em 2013, na gestão do ex-governador Marconi Perillo (PSDB). O governo afirmou à época que a renegociação representou economia de R$ 700 milhões.