O ex-governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB) afirmou, por meio da sua equipe, que precisava de “complemento de renda” ao acertar contrato de consultoria com o Banco Master, revelado na quarta-feira (8) pela Folha de S. Paulo e que gerou ao tucano pagamentos de R$ 14,5 milhões no período de 2021 a 2025. O grupo de Marconi diz acreditar que a ampla lista de contratos do Master com personalidades do meio político, do mercado financeiro, do Judiciário e da mídia minimiza o impacto na sua pré-candidatura ao governo de Goiás este ano e “prova” que nem todo caso representaria ilicitude.Já adversários de Marconi apostam, nos bastidores, que o caso Master ampliará desgastes do tucano e a alta rejeição, já apontada em pesquisas. Políticos do grupo do governador Daniel Vilela (MDB), pré-candidato à reeleição, afirmam que a associação da imagem de Marconi com escândalos de corrupção é reforçada com o novo episódio.À reportagem, a assessoria afirmou que Marconi acertou com o Master remuneração mensal de cerca de R$ 160 mil brutos (R$ 116 mil líquidos), no mesmo patamar do que já recebia como consultor da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), onde trabalhava desde 2019, depois que deixou o governo e perdeu a eleição para o Senado em Goiás. Em julho do ano passado, ele encerrou a atuação no banco, alegando que queria se dedicar à pré-campanha. Segundo a equipe, ele recebeu cerca de R$ 7 milhões no distrato do contrato.“O trabalho que o ex-governador prestou ao banco foi lícito, remunerado e declarado, em um período em que a empresa era considerada idônea”, disse a assessoria.O ex-governador afirma que prestava serviço de análise de cenário político a diretores do banco, conforme requisição dos contratantes. O convite para atuar no “time de assessoria” teria sido feito em 2021 pelo empresário baiano Augusto Lima, então CEO do Master e sócio de Daniel Vorcaro. Augusto Lima ficou preso preventivamente por 11 dias em novembro do ano passado, na primeira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal.Segundo a equipe de Marconi, o então sócio do Master alegou que o banco estava em ascensão, mas enfrentava resistência do mercado financeiro e precisava ampliar as relações com o meio político, além de contar com avaliações do cenário. “Eles buscavam crescer, eram agressivos nas estratégias e queriam mostrar um time de primeira linha, inclusive com pessoas influentes no meio político”, diz.O início do trabalho foi em agosto de 2021, de acordo com Marconi. Na prestação dos serviços, o tucano afirma que atendeu a pedidos dos diretores por telefone e em algumas visitas à sede do banco. Diz, no entanto, que não conheceu Vorcaro, que está preso desde o mês passado.Com Augusto Lima, Marconi estabeleceu relação de proximidade, segundo informações de aliados. Em 2023, o empresário começou a namorar a ex-deputada federal pelo Distrito Federal e ex-ministra do governo Jair Bolsonaro Flávia Peres, que também já tinha relação próxima com o tucano. Ela foi casada com o ex-governador do DF José Roberto Arruda.Marconi, que tornou-se presidente nacional do PSDB no fim de 2023 e permaneceu no cargo até novembro do ano passado, foi contratado pelo Master por meio de sua empresa MV Projetos e Consultoria.Os dados de pagamentos feitos pelo banco foram entregues pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, do Senado. A Folha mostrou uma lista de políticos que estão nos repasses declarados pelo Master, incluindo um outro goiano, o ex-presidente do Banco Central e ex-ministro Henrique Meirelles, que recebeu R$ 18,5 milhões. Ele também alegou ter prestado consultoria ao banco.Ainda estão na lista o ex-presidente da República Michel Temer (MDB); o ex-ministros Guido Mantega e Fabio Wajngarten; o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda; o ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo da Bahia ACM Neto (UB); e o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski.Segundo reportagem do jornal O Globo, os dados até agora indicam R$ 65,9 milhões em pagamentos do banco investigado a políticos.Apesar da primeira operação contra o Master só ter ocorrido em novembro do ano passado, em março de 2025 reportagens já apontavam suspeitas sobre a tentativa do Banco de Brasília (BRB) de comprar o banco. Segundo a assessoria de Marconi, ele pediu para sair em abril, mas o distrato só foi oficializado em julho.A “rescisão generosa” teria sido tratada com Augusto Lima. Apesar de a defesa do banqueiro ter declarado em novembro que ele se desligou “definitivamente de todas as funções executivas no Banco Master em maio de 2024”, o grupo de Marconi afirma que ele continuou atuando na instituição. O Estadão mostrou em fevereiro que, de fato, Augusto Lima seguiu representando o Master em agendas de reuniões do Banco Central ao longo do ano passado.Questionada sobre o fato de Marconi não ter se antecipado em revelar o contrato com o Master, em meio à repercussão do caso, a assessoria afirmou que ele não via necessidade porque o trabalho foi “lícito e facilmente explicável”.A equipe do ex-governador reafirmou que ele se mudou para São Paulo em 2019 porque não achava espaço para atuar em Goiás por conta de “perseguição política”. “Marconi precisa trabalhar, precisa de renda. Ele não é rico, não possui fazendas, não tem patrimônio”, afirma. “O ex-governador não tinha mandato e nenhuma ascendência sobre nenhum governo. Então não há nada que represente conflito de interesse ou influência em gestões”, completa.A reportagem também questionou se Marconi teve outros contratos de consultorias no período, o que foi negado pela assessoria. Ainda segundo a equipe, ele encerrou também o contrato com a CSN em dezembro.