Levantamento do jornal POPULAR mostra que o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO) fez pagamentos líquidos acima de R$ 100 mil a magistrados ou pensionistas em todos os meses de 2024. O pico foi registrado no início do ano. Em janeiro, 196 membros da categoria receberam mais de R$ 100 mil livres. No mês seguinte, foram 190. Agosto teve o menor número, seis.
O subsídio de juízes e desembargadores varia entre R$ 32 mil e R$ 39 mil, mas é turbinado por penduricalhos, como os direitos pessoais, eventuais e indenizações. O teto salarial dos magistrados brasileiros é o salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), de R$ 44 mil. No entanto, o pagamento de benefícios com natureza indenizatória levam aos casos de supersalários.
O site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que, no TJ-GO, são pagas indenizações como auxílios alimentação, pré-escolar, saúde, natalidade e moradia. Os magistrados goianos ainda podem ter acesso a direitos eventuais, como gratificações por exercício cumulativo, por curso/concurso e jetons. Existem ainda os direitos pessoais, como abono permanência. Em todas as categorias de benefícios existem itens classificados apenas como "outros".
A folha de pagamento bruta de magistrados e pensionistas custou R$ 70,5 milhões em janeiro de 2024. No primeiro mês do ano passado, o TJ-GO pagou R$ 19 milhões em indenizações e R$ 25 milhões em direitos eventuais. Em fevereiro, a despesa com pessoal foi um pouco maior, de R$ 70,9 milhões, com 15,7 milhões em indenizações e 27,9 milhões em direitos eventuais.
No caso das indenizações, os pagamentos continuaram no patamar de R$ 15 milhões até abril e, em seguida, tiveram comportamento estável em cerca de R$ 13 milhões até o final do ano. Quanto aos direitos eventuais, os maiores valores foram registrados ao longo do primeiro semestre. De julho a dezembro, o montante ficou entre R$ 4,3 milhões e R$ 8,7 milhões.
Em janeiro, uma juíza da 4ª Vara da Fazenda Pública Estadual teve rendimento líquido de R$ 195 mil. Neste mês, a magistrada recebeu, entre as indenizações, R$ 4 mil de auxílio-alimentação e R$ 10,7 mil de auxílio-saúde. Também foram contabilizados outros dois benefícios que somam R$ 78 mil, mas estão classificados apenas como "outros". O rendimento bruto foi de R$ 244 mil.
Em fevereiro, o maior pagamento líquido foi feito a um juiz da 30ª Vara Cível de Goiânia, com o valor de R$ 151 mil. O subsídio do magistrado é de R$ 37 mil, mas houve pagamento de R$ 94 mil em indenizações e R$ 28 mil em direitos eventuais. O pagamento bruto foi de R$ 161 mil.
Em nota, o TJ-GO argumentou que atua com transparência e dentro dos limites legais em todas as suas atribuições. "O rigoroso cumprimento das normas e legislações vigentes aplica-se também à remuneração de magistrados e servidores", informou.
A reportagem perguntou diretamente o motivo que levou à alta despesa com folha nos primeiros meses do ano, mas não houve resposta. A nota afirma que todos os atos da instituição podem ser conferidos no Diário da Justiça Eletrônico e no Portal da Transparência.
Contexto
O POPULAR mostrou que o Ministério Público de Goiás (MP-GO) pagou, em dezembro de 2024, R$ 28 milhões de verbas indenizatórias para
seus membros ativos, valor recorde no ano. Naquele mês, 32 integrantes do MP-GO receberam mais de R$ 150 mil líquidos. As 10 maiores remunerações líquidas foram de R$ 174 mil a R$ 204 mil. A lista completa tem 457 nomes e 300 deles receberam mais de R$ 100 mil livres.
Na época, o MP-GO argumentou que em dezembro de 2024 houve "o pagamento de verbas indenizatórias episódicas, não permanentes, em grande parte referentes a períodos anteriores, que foram quitadas em razão das possibilidades orçamentárias".
O pagamento de altos rendimentos a servidores públicos do Judiciário e órgãos de controle no último mês do ano passado ficou conhecido como "dezembrada". Os primeiros casos foram revelados em reportagens do jornal O Estado de S. Paulo.
Em 3 de fevereiro, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, disse, durante solenidade de abertura do Ano Judiciário, que críticas aos gastos do Poder são injustas e há casos em que são resultado da falta de compreensão sobre o trabalho dos juízes. O ministro argumentou que, desde 2017, o Judiciário tem o mesmo orçamento, corrigido pela inflação.
"Nós somos contra todo o tipo de abuso, e a Corregedoria Nacional de Justiça, liderada pelo ministro Mauro Campbell Marques, está atenta. Mas é preciso não supervalorizar críticas que muitas vezes são injustas ou frutos da incompreensão do trabalho dos juízes", disse Barroso.