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Num mundo globalizado, a imagem da empresa é patrimônio, diz Gilles Gomes

A Lei Anticorrupção, que definiu condutas vedadas e crimes de particulares contra a administração pública, completa cinco anos hoje

Gilles Gomes, advogado

Gilles Gomes, advogado (Douglas Schinatto)

Verdadeiro marco na separação entre público e privado no Brasil, ao definir uma série de condutas vedadas a agentes públicos e também às empresas (e seus funcionários) que têm relação com a administração pública, a Lei Anticorrupção (Lei 12.846/2013) completa cinco anos hoje.

Nesta entrevista, o advogado criminalista Gilles Gomes, especialista em direito penal econômico, avalia os avanços e desafios trazidos pela legislação.

Nesses cinco anos, já é possível fazer uma avaliação?

O aspecto mais positivo é internalização de uma cultura que não era nossa, que é a de boas práticas na relação entre a iniciativa privada e a pública. Temos uma herança do patrimonialismo, em que a separação nunca foi muito clara. A Lei anticorrupção veio por pressão de organismos internacionais, como OCDE e ONU, acordos firmados na década de 90.

Mas muda-se uma cultura com lei?

Não muda, mas é uma a lei que partiu do Estado como uma política pública, no sentido de ser um marco. O segundo aspecto, também importante, é uma declaração que vem do Estado brasileiro de que não dá conta de apurar e punir desvios e ele privatiza a luta contra a corrupção.

Como ocorre isso?

Transferindo à iniciativa privada condutas antes genéricas, como crimes contra a administração pública. Vemos com mais força nos vários acordos de leniência da Lava Jato, programas de leniência do CAD, a Controladoria Geral da União atuando de forma mais incisiva, até porque ela é o ente responsável pela lei por processar procedimentos administrativos em relação a empresas que cometem esses desvios. Mas os resultados virão mais a médio e longo prazos, por ser uma cultura que vem sendo consolidada, uma nova forma de agir. Essa privatização do combate à corrupção tem um pouco de metáfora.

Como controlar isso?

Chamando mais parceiros e organismos que impõem regras de compliance. Se não o fizerem, poderão ser cometidas infrações, muitas vezes sem saber que a conduta é vedada, por falta de conhecimento.

Como funciona esse conceito de compliance?

Ele não vem expresso na lei, mas decorre de um sistema normativo composto por outras leis, como lei antilavagem (de dinheiro. Indica várias práticas que as pessoas têm de adotar em relação à administração pública. Num mundo globalizado, em que a imagem da empresa é essencial, um patrimônio, e os sócios estão sujeitos a oscilações e arranhões na imagem, a ideia de adotar medidas proativas de cumprimento da lei é o que define o compliance, que é basicamente obedecer. Dentro de seu nicho, seu espaço de operação, a empresa terá encontro de vários normativos, balizas, e deve observá-los.

Pode ser um ganho, então?

Programas de compliance frequentemente são criados na via de cooperação estatal e privada e compõem outra terminologia, governança corporativa. Em última análise, a observância normativa pela iniciativa privada é uma commodity, um fator de resultado.

O que a lei veda?

São coisas óbvias, como prometer, fornecer, dar vantagens indevidas ao funcionário público. Até porque artigo 37 da Constituição prevê os princípios administrativos e um deles é a moralidade, há relação sistêmica. Financiar a prática de atos ilícitos é vedado, assim como a utilização interposta a pessoa, seja física (laranja) ou jurídica (fachada) para contratar com o poder público. Lei é severa sobre isso. Até porque o Estado é o maior contratante brasileiro. A lei tipifica condutas que antes ficavam no limbo, sem saber ao certo se seria direito penal ou administrativo.

Quais são os principais desafios para avançar?

Criada e instituída a cultura de probidade na relação entre público e privado, teremos dado um grande passo, mas, para isso, é imprescindível que empresas colaborem na perspectiva de compliance, para servirem de modelo à administração pública. Atuar para ser modelo é interessante para ela e para a sociedade. É importante que a empresa queira ser lembrada por aquilo que representa.

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"A biografia é feita para mostrar o indivíduo na sua complexidade humana", ressalta Lira Neto

Em conversa exclusiva com O POPULAR, Lira Neto fala como foi apurar e escrever a biografia de Oswald de Andrade, abordando suas obras vanguardistas, seus ideários revolucionários, suas guinadas ideológicas e seus amores intensos, entre os quais estiveram a pintora Tarsila do Amaral

Lira Neto: "Quando eu, jovem poeta ali na esteira da chamada poesia marginal, da geração mimeógrafo, eu tinha Oswald de Andrade como referência, como pai espiritual”

Lira Neto: "Quando eu, jovem poeta ali na esteira da chamada poesia marginal, da geração mimeógrafo, eu tinha Oswald de Andrade como referência, como pai espiritual” (Renato Parada)

O escritório de trabalho do escritor e jornalista Lira Neto já está diferente. Um dos principais biógrafos do País, ele acaba de lançar Oswald de Andrade: Mau Selvagem, seu mais recente trabalho, no qual mergulha na vida cheia de contradições, polêmicas e genialidade do escritor que foi um dos pilares do Movimento Modernista. Mas Lira já está embrenhado na trajetória de outro ícone de nossa cultura: Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Imagens do Velho Lua cercam o autor enquanto ele não esconde o prazer de falar do biografado anterior, o escritor que define como seu "pai espiritual". Nessa conversa exclusiva com O POPULAR , Lira Neto fala como foi apurar e escrever a biografia de Oswald, abordando suas obras vanguardistas, seus ideários revolucionários, suas guinadas ideológicas e seus amores intensos, entre os quais estiveram a pintora Tarsila do Amaral, a autora e militante comunista Patrícia Galvão (Pagu) e a uma jovem chamada Daisy, que morreu em circunstâncias trágicas. Entre escândalos em sua vida íntima e desentendimentos públicos, entre utopias apaixonadas e amizades rompidas, entre fases de vida faustosa e falência financeira dramática, Oswald de Andrade teve uma trajetória cheia de reviravoltas, de utopias e de encontros únicos com muitos dos principais artistas de seu tempo. É nesse emaranhado de referências e fatos quase inacreditáveis que o livro de Lira Neto nos convida a entrar, percorrendo um tempo e personalidades que ajudaram a moldar a cultura brasileira.

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Quando você começou a trabalhar com a personalidade de Oswald de Andrade, ele lhe surpreendeu negativa ou positivamente em alguns pontos?

Olha, eu já tinha uma ideia prévia de quem foi Oswald de Andrade, mas logicamente, quando você parte para um trabalho mais profundo, ao longo da pesquisa vai entrando em detalhes, em determinadas minúcias e, é claro, algumas delas me surpreenderam positiva e negativamente. A biografia tem exatamente essa função de revelar os lados positivos e negativos do biografado. Por mais que parecessem até escabrosas em algum momento, essas circunstâncias foram todas explicitadas no livro. Eu costumo compreender que precisamos analisar a obra de um autor separada do homem e, ao mesmo tempo, essa sua conjunção entre vida e obra, até mesmo as circunstâncias da própria obra a partir das circunstâncias não tão edificantes do biografado.

Quando a gente vê o biografado com seus defeitos, seus pecados, de alguma forma ele se aproxima da gente, porque nós também somos assim, não é?

Exatamente. Essa é a ideia. Sempre digo isso: a biografia não é feita para santificar ou heroicizar quem quer que seja. A biografia é feita exatamente para mostrar o indivíduo na sua complexidade humana. Como você bem disse, todos nós somos permeáveis por essas contradições, essas ambivalências, por esses defeitos, por essas virtudes, por nossas qualidades, mas também por nossos vícios. Quando a gente diz que a biografia humaniza o biografado, muita gente entende que a gente tá querendo adocicar as imperfeições do biografado, quando é exatamente o contrário. Humanizar o personagem é mostrá-lo na sua dimensão humana. Humana, demasiadamente humana.

O que lhe despertou a curiosidade para mergulhar na vida de Oswald de Andrade?

Oswald de Andrade sempre foi meu herói da juventude. Quando eu, jovem poeta ali na esteira da chamada poesia marginal, da geração mimeógrafo, eu tinha Oswald de Andrade como referência, como pai espiritual. Toda minha geração tinha em Oswald essa referência de alguém que tinha quebrado, subvertido o cânone literário, introduzindo doses de coloquialismo, doses de desvio da norma culta. Tudo isso para a gente era fascinante porque era mais ou menos por onde queríamos caminhar. Isso ficou latente da minha época de poeta marginal. Quando eu estava em Portugal, cresceu em mim a vontade e o desejo de revisitar a obra de Oswald de Andrade, principalmente naquilo que ele traz de crítica ao colonialismo. Você bem sabe que na universidade de Portugal, nós, brasileiros, inevitavelmente, nos deparamos com essa questão da crítica colonial. E Oswald de Andrade nos ofereceu, ainda naquele princípio do século 20, uma chave muito poderosa para fazer essa crítica pós-colonial ou decolonial, no sentido de que ele propunha -- e aí está sua grande contribuição não só para a literatura, mas para os estudos culturais de forma geral -- a chave da antropofagia, que é muito mais sofisticada do que parece numa primeira olhada. A cultura dominada precisava romper com a cultura dominante, mas ao mesmo tempo não se fechando numa xenofobia, numa prevenção contra o outro, o colonizador, mas devorar esse colonizador, tomar de empréstimo as virtudes do colonizador, degluti-las e elaborar algo absolutamente novo e criativo a partir dessa relação do eu com o outro. Isso é muito moderno. Tem gente que hoje gosta de falar em hibridismo cultural. Acho que o hibridismo não dá conta. O híbrido é infértil. O antropófago propõe essa devoração criativa. É muito mais interessante.

Quando você faz essa descrição, nos vem à mente a palavra "vanguarda". A gente fala muito das vanguardas europeias, que são muito importantes, mas nos esquecemos que Oswald, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e outros que viveram essas vanguardas lá na Europa. Falamos muito da Semana de 22, mas nos esquecemos dos anos posteriores a esse evento.

E esses anos posteriores são muito mais importantes que a Semana de 22. Isso decorre por uma série de fatores. Primeiro pelo caráter autocelebratório da Semana. É claro que a Semana teve uma importância histórica, foi um fato relevante, mas concordo com você quando diz que os anos seguintes foram mais significativos, os movimentos posteriores que vieram desaguar na antropofagia, que é produzida a partir dessas viagens, desse contato com as vanguardas europeias. Aquela frase célebre do Paulo Prado, de que Oswald redescobriu o Brasil em Paris, de certa forma também é parte do meu processo de descoberta do Oswald de Andrade. Ao manter contato com essa nata das vanguardas europeias, ele não simplesmente se rendeu a elas, fazendo uma cópia ou pastiche. Ele buscou ler isso, se apropriar das vanguardas europeias para produzir uma arte nacional. Uma leitura original, inaugural. Acho que essa ideia da consciência antropofágica vai se aprofundando a partir do momento em que ele alega, ali em 1930, de que está curado do "sarampão" antropofágico, quando ele se converte ao comunismo. Mas após essa guinada ideológica, ele retorna, de forma muito mais aprofundada, aos conceitos básicos da antropofagia. Quando ele passa por um processo de preenchimento das lacunas de sua formação de autodidata, começa a estabelecer um processo de leitura filosófica. Aí ele vai retomar os conceitos da antropofagia, agora lastreado nessa cultura que construiu já no final da vida. Aí vai produzir a célebre tese Crise da Filosofia Messiânica. É importante perceber que Oswald de Andrade elaborou isso até o final da vida. E é muito importante o contato que ele teve, já na maturidade, com a jovem geração de intelectuais oriundos da universidade. A geração dele era de autodidatas. Quando chega ali nos anos 1940 e 1950, quando ele mantém contato com Antonio Candido, Paulo Emílio, Décio de Almeida Prado, todo mundo vindo da USP com uma carga de leitura pesada. Tanto é que ele, com seu incurável senso de humor, vai chamá-los de 'chatoboys', muito inteligentes, mas sem nenhum senso de humor. Eu compreendo que Oswald se impressionou com aquilo. Por mais que tivesse essa blague, porque senão não seria Oswald de Andrade, ele compreendeu também que precisava de uma formação mais sólida.

Há essa faceta do Oswald literato, e há a faceta de Oswald homem e seus muitos amores, sempre muito intensos. Ele se jogava sem paraquedas nessas relações, em todas as fases de sua vida. Essa era uma característica que o marcava como um bon vivant, mas não parece ser só isso. Parece um mergulho de alma.

Tomado numa visão mais apressada, ele pode dar essa leitura de que era um sujeito, do ponto de vista das relações afetivas, meio irresponsável. Mas dentro dessa irresponsabilidade, havia uma busca desesperada pelo amor, e isso temperado por uma sexualização muito intensa, uma grande energia vital. Isso, logicamente, acabou por criar situações de grande constrangimento para as mulheres com quem ele se relacionou. Todas elas, de um modo ou de outro, sofreram bastante. Oswald era isso. Entre suas contradições estava a de alguém que pregava o matriarcado e ao mesmo tempo era capaz de atos muito machistas. Entre as tantas contradições de um burguês que se torna comunista, um anticlerical que fazia promessas para Nossa Senhora. Eu acho que todas essas mulheres, com mais ou menos intensidade, foram importantes na formação intelectual e artística de Oswald de Andrade. Para citar o caso de Tarsila: não me parece que teria havido o movimento antropófago ou o antropofagismo de Tarsila sem a existência do que Mário de Andrade chamava de 'Tarsiwald'. Sem essa união quase simbiótica entre ele e Tarsila, entre a deusa e o diabo do movimento modernista, não teria havido o movimento antropófago. Como não teria havido a guinada ideológica que ele deu sem Pagu (escritora e militante Patrícia Galvão). E me arrisco a dizer que não teria havido o autor experimental, modernista, sem a influência da Daisy (um dos primeiros amores de Oswald). Esse é um período menos conhecido da história do Oswald, mas ele me dá a compreensão de que naquele instante se deu a epifania do modernismo nele.

Em dois momentos do livro, quando a Daisy morre tragicamente e quando o próprio Oswald morre, você enfatiza onde ela está enterrada, no túmulo da família do Oswald no Cemitério da Consolação, em São Paulo. Ele repousa ao lado dela. Isso me deu a impressão de que, apesar de toda a importância que Tarsilla e Pagu tiveram na vida do Oswald, você aponta que o relacionamento-chave dele foi com a Daisy.

Acho que ela foi a raiz de muita coisa. Oswald jamais tirou o remorso dentro de si. A morte precoce de Daisy aos 19 anos, nas circunstâncias de um aborto mal feito, transtornou a cabeça de Oswald de Andrade a vida inteira. Ela é um personagem-chave nesse sentido, mas também no fato de que lá na garçonière Rua Líbero Badaró, onde aqueles caras todos ficavam disputando a atenção dela, escrevendo aquele diário, O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, ali é o ensaio, a iniciação do modernismo em Oswald de Andrade. Até 1918, a produção dele era absolutamente convencional. Não há um fato gerador único e exclusivo para ele ter virado modernista, mas aquela relação com Daisy, aquele diário, aquela forma de escrita espontânea, irreverente, aquele convívio com aquelas pessoas naquele ambiente, despertaram essa centelha modernista. Eu me arrisco a dizer isso. A conversão do Oswald de Andrade ao modernismo se deve muito a Daisy. E não podemos esquecer da Maria Antonieta, que é o amor maduro, o último, e que segurou a barra dele nos piores momentos, quando estava falido e doente. Estava deprimido porque, além da falência física e financeira, tinha ali a questão do esquecimento, o ostracismo. O fato de não ver a sua obra reconhecida, aquilo doía muito.

Acho que o fato de ele não ver a obra nem enxovalhada, né?

Exato. É o silêncio. Enquanto ele era criticado, isso lhe caía muito bem. Ele gostava disso. Ele se retroalimentava disso. Ele sabia que a crítica violenta contra sua obra era o que a fazia ter ressonância. No momento que silencia, que ninguém mais o leva a sério, que dizem que ele não espantava mais ninguém e que o modernismo tinha sido absorvido como cultura hegemônica, não oferecia mais perigo, então Oswald perdeu a função de polemista, de contestador.

E ele até se aproximou do governo Vargas nessa época, né?

Exatamente. Em seu desespero final, ele se aproxima do então presidente Getúlio Vargas. Oswald passou a vida inteira falando mal do Vargas.

Mas ele não estava sozinho nisso. Na biografia que você escreveu sobre Getúlio Vargas, percebe-se que essas aproximações de ocasião eram uma constante.

Sim, mas você veja que no início do Estado Novo, quando boa parte da geração modernista adere ao Vargas, Oswald ainda permanece com uma postura crítica. Ele vê Villa-Lobos virando maestro oficial, o Menotti Del Pichia, o Mário de Andrade, o Carlos Drummond de Andrade, todo mundo embarcando na Arca de Noé da era Vargas, mas ele continua lá, sozinho. Essa tentativa de aproximação deveu-se ao desespero financeiro.

Há dois momentos muito dolorosos na biografia de Oswald: a morte da Daisy, naquelas circunstâncias, e a morte do Mário de Andrade sem que ele e Oswald tenham feito as pazes. Aquele rompimento é muito triste, cheio de mágoas.

Acho que sua leitura faz muito sentido. Eu tendo a acreditar que a morte de Mário de Andrade foi outro grande baque na vida do Oswald de Andrade. E o rompimento se deu por causa dele, Oswald. O Mário aguentou até demais. Num momento que seria absolutamente impossível o Mário assumir sua sexualidade, o Oswald brincava disso com piadas de muito mau gosto. Ele o chamava de "Miss Macunaíma". Isso magoou profundamente o Mário a ponto de ele dizer: "Não faço mais as pazes com esse homem". E todas as tentativas frustradas de Oswald fizeram com que ele percebesse -- mais tarde ele vai reconhecer que Mário foi o grande nome do Modernismo e que Macunaíma é o grande livro antropofágico -- a capacidade de Mário. Ele e Mário eram muito diferentes, opostos complementares. A notícia da morte de Mário, que ele leu no jornal e entendeu que a partir dali estava impossibilitada qualquer reconciliação, aquilo lhe deixou realmente muito abalado.

Oswald tinha a esperança de voltar às boas com Mário, não é?

Tinha. E também da parte dos amigos deles. Há aquela carta que o Manuel Bandeira escreve para o Mário, quando Oswald faz uma de suas brincadeiras terríveis, Bandeira escreve aquela carta, dizendo mais ou menos assim: "Olha, Mário, eu sinto muito, espero que você não esteja muito chateado, mas com Oswald só há duas saídas: ou a gente se afasta ou a gente se torna pior do que ele". E o próprio Bandeira diz que as duas opções eram impossíveis. Era impossível se afastar dele e era impossível ser mais sacana que ele. Aí ele resume isso naquela frase genial: "Que filho da puta gostoso". Oswald levava a sério aquela máxima de que era melhor perder o amigo do que perder a piada.

E como está seu projeto novo, a biografia de Luiz Gonzaga, o Gonzagão?

O projeto de biografar Gonzagão nasceu junto com o de biografar Oswald de Andrade. Foram ideias praticamente simultâneas, também quando eu estava em Portugal. A minha experiência lá me deu essa iluminação de que eu teria de biografar dois sujeitos totalmente diferentes, mas também complementares. São duas concepções de Brasil, a partir de um sudestino, que é Oswald de Andrade, e de um nordestino, que é Luiz Gonzaga, que deram possibilidades de compreensão da alma brasileira. Logicamente não dá para escrever duas biografias ao mesmo tempo. Eu elegi Oswald de Andrade como primeira empreitada, mas desde aquele momento, cerca de cinco anos atrás, comecei a juntar material sobre Gonzaga. Quando eu me liberto de um personagem, meu escritório se modifica. Muda a decoração. Agora aqui, Gonzaga é onipresente. É um projeto que já está contratado pela Companhia das Letras e eu estou na fase intensa de pesquisa. Vou começar a rodar o Brasil, fazendo muitas entrevistas. Ao contrário de meus biografados anteriores, quase todos eles mortos há muito tempo, eu não tive muita possibilidade de recorrer a entrevistas. O Oswald morreu em 1954. No caso de Gonzaga eu vou ter a oportunidade de conversar com quem conviveu com ele. É um trabalho que tem outra natureza, mas ao mesmo tempo é um projeto com que eu me identifico muito. Eu cresci ouvindo Luiz Gonzaga. Na minha pré-adolescência, minha irmã mais velha comprou uma coleção com 20, 25 LPs de Luiz Gonzaga e aquilo foi a trilha sonora de minha adolescência. Até o momento em que eu descobri o Gonzaguinha, com meus 18 anos, o Gonzagão era minha trilha sonora. É um livro que estou fazendo com muito carinho e que tem relação com quem eu sou. Assim como Oswald de Andrade foi meu pai espiritual como poeta marginal, o Gonzaga é o pai espiritual da nordestividade que existe em mim. E eu quero mostrar como se deu esse processo de construção, de invenção da nodestividade a partir de Gonzagão. Ele é um dos inventores do Nordeste como o conhecemos.

Ele trazia muitos símbolos. O chapéu de couro, o gibão.

Ele se apropriou de elementos da cultura nordestina e os mesclou, usando o gibão do vaqueiro, o chapéu de couro do cangaço, a oralidade sertaneja, usou todo o imaginário em torno do universo da seca, dos cantadores de feira, transformou e estilizou isso no baião. Eu não considero o Gonzaga o representante da música autêntica do Nordeste porque eu não acredito nessa definição de autêntico. É próprio da cultura a reelaboração. Acho que o grande feito de Luiz Gonzaga, junto com Humberto Teixeira, foi a astúcia de pegar esses elementos sertanejos, estilizá-los e trazê-los para a cultura de massa. Isso é antropofágico. Aquele ponteio da viola do cantador, ele transformou na batida do baião. Assim como João Gilberto inventou uma batida do violão, sintetizando o samba no dedilhado do violão, Gonzaga conseguiu também, na batida do baião, sintetizar a sonoridade dos cantadores e dos violeiros, trazendo isso para o mundo eletrônico. Isso é fantástico. Nesse sentido, Gonzaga também é antropofágico. São, assim, dois projetos que se conectam, apesar de parecer tão díspares.

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Trump chama Musk de líder e troca afagos com bilionário em entrevista na Fox News

Durante a entrevista, que durou cerca de uma hora, os dois responderam perguntas amigáveis do âncora Sean Hannity - a Fox News é uma emissora simpática ao republicano

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e Elon Musk, diretor executivo da Tesla Motors

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e Elon Musk, diretor executivo da Tesla Motors (Reprodução/Redes Sociais)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trocou afagos com o bilionário Elon Musk em entrevista conjunta à emissora Fox News transmitida nesta terça-feira (18) na qual chamou o dono do X de um líder, "uma ótima pessoa" e "um cara muito inteligente".

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Durante a entrevista, que durou cerca de uma hora, os dois responderam perguntas amigáveis do âncora Sean Hannity - a Fox News é uma emissora simpática ao republicano. Em determinado momento da entrevista, Hannity disse que entrevistar Trump e Musk "é como entrevistar irmãos" e encerrou a conversa afirmando rezar a Deus para que as medidas de cortes de gastos do bilionário tenham sucesso.

Musk recebeu carta branca de Trump para reduzir drasticamente ou eliminar o orçamento de programas considerados pelo dono do X e da SpaceX "desperdício de dinheiro do contribuinte". Na prática, o bilionário, à frente do Doge (Departamento de Eficiência Governamental, na sigla em inglês), tem mirado programas que considera "de esquerda" ou relacionados a programas de diversidade.

Trump e Musk trocaram elogios ao longo de toda a conversa com Hannity, com o empresário dizendo, por exemplo, que nunca viu o republicano "jamais ser cruel ou desagradável com ninguém", e com o presidente respondendo que sempre respeitou Musk. "Não poderia ter encontrado ninguém mais inteligente."

O âncora da Fox News pediu que Trump comentasse o que chamou de "tentativas dos democratas e da mídia" de criar divisões entre ele e Musk ---houve relatos na imprensa americana sugerindo que o presidente estaria incomodado com a influência crescente do bilionário em seu governo. À Fox, o republicano negou divergências e disse confiar plenamente em Musk, que atacou a imprensa pelos relatos.

Trump aproveitou várias oportunidades para criticar seu antecessor, Joe Biden, e exaltou o trabalho que seu governo tem feito para diminuir o número de migrantes em situação irregular que entram nos EUA pela fronteira com o México ---as detenções feitas pelas autoridades migratórias atingiram o número mais baixo desde 2020.

Musk, por sua vez, reclamou das críticas que teria recebido de conhecidos depois que apoiou publicamente a campanha eleitoral de Trump em 2024. "A esquerda me adorava. Eu fui a uma festa antes da eleição, e quando mencionei Trump, foi como se eles tivessem sido atingidos por um dardo com metanfetamina e o vírus da raiva", afirmou Musk, imitando o que parecia ser um zumbi. "Eles ficaram totalmente irracionais."

Hannity perguntou a Musk o que achava das críticas do Partido Democrata contra ele ---a oposição vem organizando protestos contra os cortes de gastos e as medidas agressivas do bilionário em relação ao orçamento do governo.

"Devemos estar fazendo alguma coisa certa. Senão, eles não estariam reclamando tanto", respondeu Musk. "Só o que queremos fazer e devolver o governo ao povo. A burocracia se opõe a nós de maneira implacável", disse, mencionando o dado de que mais de 90% da população da capital, Washington, votou na democrata Kamala Harris.

"Penso bastante nesse número", afirmou, insinuando uma conexão inexistente entre a preferência eleitoral da capital, cidade com forte população negra e relação histórica com o Partido Democrata, e o alinhamento político de servidores públicos. "Se a palavra do presidente não é implementada, não vivemos numa democracia, vivemos numa burocracia", afirmou. "Acho que estamos vendo a burocracia se debater."

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Chega pra Cá #139: Edson Roberto Vieira, superintendente estadual do IBGE em Goiás

Ele vai falar sobre inflação, custos, índices da construção civil e atividades econômicas do estado

undefined / Reprodução

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apura indicadores econômicos entre janeiro e dezembro, ano após ano. Todo mês, o instituto mostra como reagiram a inflação, os custos e índices da construção civil, dados da indústria, do comércio, do setor agrícola e do desemprego.

Esses índices fecham o ciclo em dezembro. Em janeiro começa tudo de novo, mas com uma novidade, o fechamento dos indicadores de todo ano anterior, de janeiro a dezembro, exibindo uma espécie de foto das atividades econômicas de Goiás. Por isso, o convidado deste episódio do Chega pra Cá é o superintendente estadual do IBGE em Goiás, Edson Roberto Vieira.

Cileide Alves entrevista o superintendente estadual do IBGE em Goiás, Edson Roberto Vieira (Reprodução/Redes sociais)

Cileide Alves entrevista o superintendente estadual do IBGE em Goiás, Edson Roberto Vieira (Reprodução/Redes sociais)

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Jackson Abrão entrevista Adriana Accorsi e Ismael Alexandrino

Deputados federais são os convidados desta segunda-feira (17)

O "Jackson Abrão Entrevista" desta segunda-feira (17) recebeu os deputados federais Adriana Accorsi e Ismael Alexandrino.

Assista na íntegra clicando acima.

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