Clássicos como The Robots (1978), da banda alemã Kraftwerk, e A Pele do Diabo com o Dono do Céu (1979), de Zé Ramalho, são algumas das joias raras que a DJ Yasmin Lauck guarda em sua coleção de vinis. "Os discos possuem uma entrega sonora belíssima e bem definida", conta a artista, que é de uma geração que tem cada vez mais revisitado os LPs.
O formato dos discos sumiu das prateleiras a partir dos anos 2000, mas voltou a dar sinal de vida com novas tiragens, relançamentos, projetos musicais e feiras. Um dos exemplos é a 1ª edição da Vinillândia 2025, que toma conta do pátio do Centro Cultural Martim Cererê neste sábado (5), a partir das 14 horas.
"Meu pai é músico e sempre foi viciado em ouvir todo tipo de mídia, ele me introduziu a ideia quando ainda era criança", adianta Yasmin, que integra o line-up da feira. Durante toda a tarde e início da noite, DJs como Wendel La Vinil, Lethal Breaks (de Brasília), e Mauricio Mota promovem discotecagens especiais com vinis.
O fato é que o mercado de LP segue em alta no Brasil, impulsionado pelo crescente interesse da Geração Z e por uma nova abordagem do governo sobre a tributação das mídias físicas. Em 2024, por exemplo, as vendas físicas registraram um crescimento de 31,5% e alcançaram o maior patamar desde 2017, com R$ 21 milhões. O formato que mais contribuiu com esse crescimento foi o vinil, cujo faturamento chegou a R$ 16 milhões.
"De tempo em tempo alguma coisa é revivida, né? Por diversos motivos a prensagem de discos voltou a ocupar espaço nos materiais de mídias físicas dos artistas populares e da atualidade", diz Yasmin, que completa: "Alguns discos muito famosos foram reprensados e tem muito artista independente interessado ou já mandando produzir LPs".
A crescente demanda por discos de vinil no Brasil tem refletido a tendência mundial de resgate do formato físico. A declaração recente do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre a revisão da tributação de discos importados pode representar um novo impulso para o setor, tornando o formato ainda mais acessível aos consumidores.
"O mercado atual está forte, as fábricas estão com alta demanda e os pedidos demoram de três a seis meses para ficar prontos. São muitos lançamentos saindo todos meses", explica o produtor Leo Bigode, da Monstro Discos, que produz e vende LPs na loja física da produtora localizada no Centro de Goiânia. "Os desafios para selos e distribuidores envolvem prazos de entrega e valores dos insumos que podem variar de acordo com dólar", reitera.

Os produtores Leo Bigode e Leo Razuk, da Monstro Discos, ajudam na produção e circulação dos vinis em Goiânia (Wildes Barbosa / O Popular)
A produtora de Goiânia surgiu em 1998 lançando vinis. Os primeiros discos do catálogo foram todos compactos em vinil, tudo isso em uma época que todo mundo estava em busca dos CDs e se desfazendo das coleções de vinil. O catálogo atual da Monstro Discos é extenso e praticamente todo o mês um título é lançado, a exemplo de artistas como Odair José, Jão, Black Drawing Chalks e Ana Canãs.
"O vinil preserva os áudios o mais original possível enquanto o digital transforma o áudio em dados e isso pode eliminar alguns detalhes", destaca o produtor e jornalista Léo Razuk, da Monstro. Segundo o especialista, há diferenças de sonoridade nos médios, graves e agudos que deixam o som mais quente, dinâmico e gostoso para o ouvido. "E tem aquele choradinho charmoso...", graceja.
Feiras como a Vinillândia ajudam a oxigenar a cena de música da cidade e é um momento para troca de informações, contato com outros colecionadores e vencedores, segundo Razuk. "É uma reunião, uma festa da comunidade de vinilzeiros. Alguns levam os filhos para que eles comecem a desenvolver essa paixão também. Porque o vinil tem muito disso, de paixão", diz o produtor.
Música mais afetiva
"O vinil exige a participação do ouvinte. Você precisa trocar o lado do disco, botar a agulha no vinil, retirar da capa e interagir com a obra", adianta o pesquisador musical Renan Accioly, proprietário da Fadiga Discos, loja que vende LPs no Centro de Goiânia. "Acredito que um dos grandes motivos para o aumento do consumo dos discos de vinil seja a necessidade de se aproximar da música de uma maneira mais afetiva", comenta.

Para o pesquisador Renan Accioly, o vinil aproxima a música de maneira mais afetiva (Diomício Gomes / O Popular)
Muito além da própria música, existe no LP uma valorização da estética, da capa do disco, encarte com as letras, o material gráfico e as edições especiais. Cores e tamanhos diversos transformam a experiência de se ouvir música em um ritual. "A aproximação do analógico vem da necessidade de estar mais próximo do que se ouve", destaca Renan.
Para a engenheira de software, Carolina Alves Branquinho, 29, o crescente interesse pelo analógico em uma sociedade tão digital faz todo sentido. "Busco me afastar um pouco das tecnologias que nos cercam constantemente. A quantidade imensa de informação e recursos disponíveis acaba sendo esmagadora e difícil de processar de maneira natural. Optar pelo analógico é uma forma de desacelerar, fugir da velocidade do dia a dia e aproveitar os momentos com mais tranquilidade", reflete.
SERVIÇO
Evento: 1ª Vinillândia 2025
Data: Sábado (5), das 14 às 20 horas
Local: Centro Cultural Martim Cererê, Travessa Bezerra de Menezes, St. Sul
Ingresso: Entrada gratuita mediante doação de 1kg de alimento
Informações: @monstrodiscos