O meu autismo preferido
Marcelo Marques
Sua cabeça funciona de maneira diferente das outras pessoas. Você mantém pouco contato visual, odeia barulhos altos e tem um foco incrível em tudo o que faz. Seria assim se você fosse autista.
O autismo é uma síndrome que pode se manifestar em diferentes graus de complexidade, influenciando muito ou pouco a vida das pessoas diagnosticadas. Alguns autistas famosos por suas formas particulares de pensar, como Elon Musk e Bill Gates, fazem com que as pessoas associem o autismo à superinteligência. Porém, a realidade é bem mais complexa.
Há poucas décadas pessoas autistas eram frequentemente trancadas em manicômios e abandonadas por suas famílias. Com o passar do tempo, felizmente, o tema começou a ser estudado com mais seriedade e compreensão, embora muitas perguntas ainda não tenham respostas definitivas pela ciência.
A sabedoria popular afirma que "de perto ninguém é normal", e hoje está cada vez mais difícil para a neurociência determinar exatamente o que significa ser "normal". Certamente você já se perguntou: "Eu sou normal?". No meu caso, fui diagnosticado com autismo aos 40 anos porque minha família buscava explicações para algumas características minhas.
Mesmo tendo estudado em uma das melhores faculdades de medicina da Europa, ninguém percebeu meu autismo ou, ao menos, não me informaram disso. Afinal, naquele ambiente altamente competitivo, quem poderia realmente ser considerado "normal"?
Finalmente, a medicina está conseguindo diagnosticar e tratar adequadamente o Transtorno do Espectro Autista, fazendo com que ele deixe de ser um estigma. Sinceramente, minha vida não mudou em nada depois do diagnóstico, nem precisaria mudar, mas eu passei a me entender melhor.
Na véspera do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, convido você a refletir: você seria considerado normal em outro planeta? É exatamente assim que um autista se sente. Filosofando um pouco, poderíamos definir que, no nosso planeta, "normal" é aquilo que é melhor para a maioria das pessoas. Talvez o autista apenas esteja inserido no ambiente errado.
No lugar certo e com as ferramentas necessárias, pessoas autistas podem ser extremamente produtivas. Não se deve esperar que um peixe seja bom em subir árvores. Cada indivíduo tem suas próprias habilidades.
Se seu filho é diferente, não o force a ser igual a você. Ofereça condições para que desenvolva suas habilidades sem pressão e sem tentar antecipar diagnósticos precoces em bebês. O mundo já tem rótulos demais; não é preciso rotular alguém para tratá-lo com respeito e compreensão. O essencial é o acompanhamento com o pediatra para garantir que cada criança desenvolva plenamente seu potencial.
Em vez de tentarmos definir o que é normal, seria muito mais produtivo criarmos condições adequadas para que o autista possa contribuir plenamente neste planeta, com suas diversas habilidades. Afinal, o mundo só evolui porque algumas pessoas pensam diferente. E o "normal", se é que realmente existe, costuma ser extremamente chato.
Marcelo Marques, médico e gestor
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